sábado, 31 de outubro de 2009

OPINIÃO - ANO XVI - N° 169 - NOVEMBRO/2009

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Um gênio renascido? .

Jornais britânicos estão destacando a história de Oscar Wrigley, menino de dois anos com coeficiente de inteligência comparável ao de Albert Einstein.

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Começou a falar aos 9 meses.
Oscar, segundo relata sua mãe, Hannah, com apenas 4 meses, apontava para a roupa que queria vestir, entre duas oferecidas por ela. Tinha apenas 9 meses quando começou a falar. Com um ano e meio, certo dia, enquanto sua mãe lhe dava banho, o menino recitou todo o alfabeto inglês. Com dois anos de idade, seu vocabulário já era de 600 palavras, 30 vezes mais do que o normal em crianças de sua idade.
Oscar Wrigley vive na pequena cidade de Reading, a 40 quilômetros de Londres, mas hoje é uma personalidade internacional. Mês passado foi tema dos principais órgãos da imprensa britânica, tais como BBC, Daily Mail e The Daily Telegraph. Tudo por conta dos resultados obtidos em teste de coeficiente de inteligência (Q.I.) em que alcançou 160 pontos, índice só atingido por 2% da população mundial e equivalente ao do famoso físico Albert Einstein.
Agora, com 2 anos e meio, trata de temas completamente alheios àqueles habitualmente tratados em seu círculo familar. Segundo Joe Wrigley, seu pai, um especialistas em tecnologia da informação, “esses dias, ele esteve falando à minha mulher sobre o ciclo reprodutivo dos pinguins”.
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Um superdotado
O menino britânico é o que se chama de um superdotado. A superdotação é um fenômeno usualmente definido como capaz de englobar, além da inteligência acadêmica, outras habilidades como a criatividade, o senso de liderança, motivação, potencial artístico, desenvolvimento psicomotor ou outros talentos especiais.
Vasta literatura, em todo mundo, trata do fenômeno, dando destaque, especialmente, a como interagir com o superdotado, no lar e na escola, e suas relações com as demais crianças. A explicação do fenômeno, entretanto, está longe de obter um consenso. Há os que atribuem a genialidade precoce a fatores genéticos e hereditários. Vale dizer: por circunstâncias ligadas à natureza, uns nascem mais inteligentes que outros. Uma segunda corrente defende que ninguém nasce mais inteligente que outros, que não somos “seres da natureza”, mas “seres culturais”, e que habilidades e saberes resultam sempre dos estímulos a que é submetida a criança. No plano acadêmico, adota-se uma explicação contemplando os dois fatores, ou seja, admite-se um equilíbrio entre a genética e a influência ambiental, criando um cenário favorável ao desenvolvimento da inteligência.
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A hipótese espírita
Propondo uma síntese entre as possíveis causas da superdotação, o espiritismo não despreza nem as influências genéticas ou hereditárias, nem os fatores culturais. Defendendo a ideia do espírito como identidade fundamental do ser humano, sustenta a hipótese da memória extracerebral, fator responsável pela retenção de conhecimentos, sentimentos e tendências comportamentais que se agregam ao patrimônio cultural, encarnação após encarnação. A ideia do espírito imortal e a da reencarnação, segundo o espiritismo e outros correntes, como a psicologia transpessoal, seriam a chave a desvendar o enigma dos superdotados.
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Nossa Opinião
Na semana em que a mídia do mundo todo repercutia as notícias vindas da Inglaterra, sobre o garoto superdotado britânico, reportagem da revista Veja explorava matéria buscando explicar a genialidade de Albert Einstein a partir de exames feitos no cérebro do famoso físico.
Quando de sua morte, em 1955, Einstein teve preservados 180 fragmentos de seu cérebro, cuidadosamente guardados no Hospital de Princeton, em Nova Jersey. Divulgam-se agora resultados de exames feitos nesse material. Neurocientistas e anatomistas encontraram algumas características que podem diferenciar o cérebro de Einstein das demais pessoas. Detalhes pequenos como uma saliência no córtex motor e que seria responsável pela aptidão de tocar violino; o tamanho 15% maior do lobo parietal, sugerindo um dom especial pela matemática; neurônios levemente mais longos na área esquerda do hipercampo, o que, segundo alguns estudos, permite relacionar memórias com raciocínios.
A grande indagação que se pode fazer, no entanto, é esta: tais características fisiológicas nasceram com o grande físico alemão ou foram desenvolvidas a partir exatamente de seus dotes naturais? Ou, por outra: é a função que faz o órgão ou este determina as funções? Jackson Bettancourt, neuroanatomista da Universidade de São Paulo disse à reportagem que “até hoje não foi descoberta uma relação entre o formato e a composição do cérebro e os dotes intelectuais”.
Nenhuma das hipóteses nesse campo pode ser tida como cabal e definitivamente comprovada. Muito menos a tese espírita é reconhecida como cientificamente comprovada. Os padrões com que a ciência trabalha não vão além do cérebro. O espírito ou a alma seguem sendo incógnitas, porque nossa cultura relegou-o a mera questão de fé. Perifericamente, entretanto, pesquisas importantes, especialmente ligadas ao chamado fenômeno da memória extracerebral, oferecem rico material de estudo. Como no tempo das mesas girantes, onde a experimentação trouxe elementos de convicção sobre a imortalidade do espírito, os fatos convidam, agora, a se dar mais atenção à hipótese das vidas sucessivas. Síntese filosófica admirável, ela pode conciliar teses aparentemente distintas: a de que “nascemos” sem nada saber (simples e ignorantes) e vamos agregando à nossa personalidade saberes que as experiências culturais (reencarnações) vão somando à nossa vida de espíritos imortais.
(A Redação)
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Editorial
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Espiritismo e Ciência
O Espiritismo sem a ciência estaria sem apoio e controle e poderia embalar ilusões.
Allan Kardec, em “A Gênese” .
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É frequente lamentar-se, no meio espírita, o fato de não se fazer ciência entre nós. Afinal, diz-se, Allan Kardec definiu o espiritismo como uma ciência, sonhando dar-lhe, no mundo moderno, precisamente essa identidade principal, em conjunto com as consequências éticas que de seu conhecimento naturalmente defluiriam.
Do Século 19 aos tempos de hoje, entretanto, o cenário científico transformou-se profundamente. A ciência fez-se muito mais exigente nos seus parâmetros. Com o desenvolvimento da tecnologia, a mesma ciência que a criou passou a ser dela dependente. Um experimento científico para ser reconhecido como tal necessita ser cabalmente demonstrado, exigindo, para isso, o concurso de cada vez mais sofisticados meios tecnológicos.Sem avançadas tecnologias, impossível fazer ciência.
Outro era o quadro da chamada “ciência experimental” do século de Kardec. Os fenômenos das mesas girantes, os tantos e tão ricos episódios de materializações produzidos ou abonados por eminentes cientistas nas décadas que se sucederam, foram, no entender deles, suficientes para a comprovação da proposta fundamental espírita: a da imortalidade e comunicabilidade dos espíritos.
Resta, assim, extremamente difícil, ou mesmo impossível, fazer ciência no meio espírita. Em contrapartida, encaminha-se o espiritismo, pouco a pouco, nos países em que é conhecido, a se firmar como um respeitável movimento de ideias. Movimento tão mais respeitado, pelos padrões laicos da sociedade moderna, quanto mais for capaz de abdicar de sua qualificação de religião, para identificar-se como uma filosofia. A racionalidade espírita, aliada à visão humanista e progressista do espiritismo, são fatores que o qualificam e lhe podem assegurar um lugar de destaque na contemporaneidade.
Mesmo assim, os postulados filosóficos espíritas reclamam, para conquistarem validade universal, um suporte científico. Algumas áreas da ciência atual - destaquem-se as modernas concepções da física quântica, a parapsicologia, a psicologia transpessoal e outras -confortam, em alguma medida, as propostas espíritas. No âmbito das ciências biológicas, mesmo preponderante um acentuado reducionismo, fundado em arraigadas concepções materialistas, é de se reconhecer que nem o avanço extraordinário da genética, nem o conhecimento minucioso da fisiologia do cérebro e de suas funções, têm sido capazes de explicar toda a grandeza da mente, suas capacidades, aptidões e potencialidades. A genialidade em crianças, sem que atributos idênticos possam ser encontrados em seus antecedentes genéticos e tampouco em seu entorno sócio-cultural, como enfocado na matéria de capa deste periódico, é apenas um dos fatores a sugerir que a ciência tem pela frente uma longa caminhada até poder definir cabalmente o fenômeno da inteligência, precioso bem da vida humana. Na sua essência, aliás, a vida continua sendo um enigma.
Ao espírita e às suas instituições representativas, pois, cabe manterem-se razoavelmente atentos a tudo o que se passa no vasto campo das ciências humanas. Cumpre esforçarmo-nos por melhor entendê-las, identificando em suas trajetórias, tendências e descobertas, aqueles fatores capazes de confortarem a concepção filosófica por nós adotada. Se não estamos habilitados a fazer ciência, em nosso meio, habituemo-nos a praticar a filosofia da ciência, desenvolvendo uma postura crítica em relação a ela. Recordemos sempre que Kardec demonstrou, invariavelmente, um imenso respeito pela ciência, abrigando a convicção de que será pela atuação desta, e não pela força da fé, que se haverá de inaugurar, um dia, a Era do Espírito.
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Se não estamos habilitados a fazer ciência, habituemo-nos à prática da filosofia da ciência.
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Opinião em Tópicos
Milton R. Medran Moreira
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Cai o número de abortos
Uma boa notícia: o número de abortos no mundo caiu em quase 4 milhões nos últimos 10 anos. É o que indica pesquisa do Instituto Guttmacher, organização americana de saúde sexual. De 1995 a 2003, houve uma redução de 3,9 milhões de interrupções de gestação no mundo todo. A pesquisa também revela que, no ano de 2008, o número de gestações indesejadas diminuiu de 69 para 55 casos em cada mil mulheres da faixa etária de 15 a 44 anos.
Tudo isso, graças à popularização dos métodos anticoncepcionais. Quer dizer: na medida em que as mulheres do mundo todo, contrariando arraigados preconceitos religiosos, têm acesso aos meios contraceptivos, vão diminuindo os casos de aborto e também as gestações indesejadas. Fruto da educação ou da “força das coisas”, como diria Kardec.
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Pelo direito à vida
Em números absolutos, os casos de aborto, no mundo, caíram de 45,5 milhões para 41,6 milhões entre 1995 a 2003. Há de se dizer: ainda é um índice assustador. Mas o estudo salienta outro dado relevante: nos países onde a interrupção da gestação é criminalizada, os abortos clandestinos causaram 70 mil mortes de mulheres que se valeram desses meios, no período abrangido pela pesquisa. Outras 5 milhões de mulheres, anualmente, necessitaram de tratamentos emergenciais por complicações decorrentes de práticas abortivas precárias, sem qualquer condição de higiene. Nesses casos, para quem, como nós, espíritas, nos preocupamos com o direito à vida, lamenta-se duplamente: pela morte do feto e pela perda da vida ou danos à saúde da infeliz gestante.
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Descriminalização, uma tendência mundial
Estatísticas como estas conduzem as pessoas de bom senso a uma mudança de foco no trato da questão do aborto. É que também se comprovou que a persecução criminal, no caso, não reduz a prática dos abortos. Apenas torna-a mais perigosa. Com a agravante de que os danos não atingem apenas o feto, mas também a gestante, os outros familiares desta, a saúde pública e a sociedade como um todo.
Diante dessa realidade, há uma tendência mundial no sentido da descriminalização do aborto. Este somente em 32 países continua sendo penalmente punível. Desse universo, desde 1997, 19 nações amenizaram as restrições, tornando as penas mais brandas ou ampliando os casos de aborto legal. Tudo em sentido contrário à postulação religiosa, que é de punir cada vez mais draconianamente.
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Mudança de foco
Descriminalizar necessariamente não significa aprovar o aborto. Para nós, espíritas, este, quando dolosamente praticado, será sempre uma grave violação às leis naturais. Seus responsáveis terão de se ver com o tribunal de suas próprias consciências. Parece ser esse o conceito com o qual, primordialmente, deve trabalhar o espiritismo. Em sintonia com as tendências da sociedade moderna, está na hora, pois, de o segmento espírita igualmente mudar seu foco em relação ao tema. Diante desse tormentoso drama e da criminalidade em geral, nossa tarefa é a da educação para a vida. Cerrar fileiras, com as religiões, pela punição criminal não parece ser a melhor política. Como registra a questão 797 de O Livro dos Espíritos, nossas leis, infelizmente, objetivam punir o mal depois de feito, quando deveríamos buscar reformar o ser humano pela educação, para que não mais precise de leis tão rigorosas.
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Notícias
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CEAK Santos convida para pesquisa mediúnica
O Centro Espírita Allan Kardec, de Santos/SP está convidando centros e grupos que praticam a mediunidade para uma pesquisa mediúnica. Ela integra o projeto Iniciação Científica desenvolvido pelo CEAK com jovens de sua pré-mocidade. O grupo, composto de sete jovens de 13 a 14 anos, escolheu o tema “A intervenção dos espíritos no mundo corporal”. Após trabalharem com intensa revisão e análise do tema nas obras de Allan Kardec, incluindo a Revista Espírita desejam agora realizar a pesquisa, com a participação de centros espíritas interessados.
Instituições interessadas deverão submeter aos espíritos questionário composto de quatro perguntas, como segue:

1. Em sua opinião, em que medida um espírito desencarnado pode influenciar um espírito encarnado?
2. Qual o grau de interferência dos espíritos sobre os acontecimentos da vida?
3. Qual a validade da expressão utilizada pelos espíritos ao responderem a pergunta 459 de “O Livro dos Espíritos”, na qual afirmam que os espíritos interferem em nossa vida “a tal ponto que são eles que nos dirigem”?
4. Kardec afirma em diversos pontos de sua obra que para que ocorra a interferência dos espíritos desencarnados sobre os encarnados (para o bem ou para o mal) é necessário que haja “afinidade energética”. De que natureza é esta “afinidade energética”? Como explicá-la?

O projeto sugere aos participantes da pesquisa mediúnica que uma semana antes da realização da reunião seja feita uma evocação de espíritos que aceitem ser questionados sobre o tema
As respostas devem ser enviadas por e-mail para um dos dirigentes da instituição: Ademar Arthur Chioro dos Reis (arthur@iron.com.br) ou Paulo Muniz( paulogmuniz@hotmail.com).
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Conferências mensais do CCEPA
A conferência de Homero Ward da Rosa, sobre Determinismo e Livre Arbítrio, programada para a primeira segunda-feira de outubro, no CCEPA, precisou ser adiada, em razão de forte temporal que se abateu sobre a capital gaúcha, na noite de 5 de outubro, quando deveria ter sido realizada. Homero será programado para um dos próximos meses.
Na noite de 2 de Novembro, o conferencista foi o Diretor de Comunicação Social do CCEPA, Milton Medran Moreira, com o tema “O Espírito de um Novo Tempo”, temática de seu novo livro de crônicas, que está sendo lançado pela Editora Imprensa Livre, na 55ª Feira do Livro de Porto Alegre.
Para o mês de Dezembro (Dia 7, às 20h30min), o convidado do CCEPA é o professor Jerri Almeida (na foto) que abordará o tema “Filosofia da Convivência à Luz do Espiritismo”.
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Firmado contrato com hotel de Bento Gonçalves para Encontro dos Amigos da CEPA
O Centro Cultural Espírita de Porto Alegre firmou recentemente contrato com o Hotel Dall’Onder, da cidade gaúcha de Bento Gonçalves, capital da uva e do vinho, para sediar o II Encontro dos Amigos da CEPA. O evento, que terá a organização do CCEPA, acontece de 3 a 6 de Setembro de 2010. A partir de janeiro, estarão abertas as inscrições para todos os espíritas interessados.
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Enfoque
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A bela e singela Ardi
Eugênio Lara*
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No início de outubro deste ano, a sociedade e a comunidade científica foram informadas da existência de um fóssil encontrado na Etiópia, África, em meados dos anos 1990, mas que somente agora, graças aos modernos recursos da computação gráfica e digitalização de objetos, pôde ser reconstituído. Trata-se de um hominídeo fêmea, um Ardipithecus ramidus com cerca de 4,4 milhões de idade, apelidado de Ardi. É, portanto e, por enquanto, a nossa irmã mais velha. A popular Lucy, um exemplar de Australopithecus afarensis, até então a primogênita, virou irmã do meio, pois é cerca de um milhão de anos mais nova.

Parece simples: apenas um milhão, dois, três, quatro milhões de anos. Mas não é. Torna-se extremamente difícil, quase impossível abarcar mentalmente todo esse tempo, numa vida média de 80 anos como ainda é essa nossa vida. Não dá para se ter a noção de tempo, a não ser de forma abstrata, matemática, histórica, arqueológica.
Os cientista afirmam que o elo perdido, o ser originário da humanidade, dos primatas e que, muito provavelmente se bifurcou devido ao processo de seleção natural, conforme previu Darwin e Wallace, viveu há cerca de seis ou sete milhões de anos. Enfim, estamos cada vez mais próximos da aurora da humanidade, de acessar o hominídeo perdido, o elo longínquo, que será o pai/mãe de todos nós ou nosso tataravô primordial, o verdadeiro Adão, provavelmente todo peludinho, de aspecto simiesco, mas com inteligência diferenciada. E, com certeza, ao contrário de Adão e Eva, esse aí terá o seu umbiguinho e todas as costelas as quais tem o devido direito.
Quanto mais a origem do ser humano se distancia de nós, no tempo e no espaço, mais nos distanciamos de Deus. Sim, do Deus-pai e esquizofrênico dos cristãos, do Deus-guerreiro e exclusivista dos judeus ou do Deus-vingativo e irascível dos muçulmanos fundamentalistas. E nos aproximamos cada vez mais de algo fora de nossa compreensão, cuja palavra foge de nossos lábios para comunicar, distancia-se de nossa mente para conceituar, mas se encontra, possivelmente, em nossa consciência de forma intuitiva para sentir e perceber que, aqueles deuses das religiões monoteístas tornaram-se extremamente inúteis e dispensáveis. Ou seja, todas as religiões monoteístas, o islamismo, o judaísmo, o cristianismo e seus derivados, incluindo-se aí o espiritismo cristão, tendem a se situar fora do esquadro, fora de contexto, voltadas para si mesmas, com um discurso ridículo, ultrapassado, carcomido pelas eras, vilipendiado e desmascarado pelas Ardis e Lucys, simpáticas e felizes em sua santa fossilização.
Quando Nietzsche decretou, simbolicamente, a morte de Deus, e com muita razão, muitos pensadores espiritualistas se sentiram agredidos, notadamente os de formação e influência de alguma dessas religiões monoteístas citadas, notadamente a cristã. Pois esse Deus, que morreu de inanição, não tem nada a ver com aquele algo a que nos referimos. Esse algo não sabemos o que é pois falta-nos um sentido, um quê de compreensão ainda distante de nossa assimilação intelecto-moral, psíquica e afetiva.
Colocar o acaso no lugar dessa coisa incompreensível é uma insensatez, da mesma forma que transformar essa coisa à nossa imagem e semelhança como tem feito a humanidade desde a época das cavernas, parece ser hoje, em pleno início do terceiro milênio, uma grande burrice.
Chamar esse mesmo algo que antecede a tudo de inteligência primordial, de causa suprema ou coisa que o valha, também não resolve o problema, aparentemente insolúvel. Menos ainda seria acrescentar-lhe atributos, o que o transformaria novamente num ser, ainda que bem diferente daquele demiurgo, daquele criador reverenciado pelas religiões.
É preferível ainda se fixar no que os olhos vêem, como fez Tomé. Ou então intuir de modo sincero, mas perigoso pela proximidade com o misticismo, essa coisa inútil e estéril que não se realiza socialmente, não se faz solidária, pois se firma como uma práxis solitária e indescritível, incomunicável. No que a mente interpreta e no que a razão dita, ainda que sempre embotada por nossas paixões, eis o que temos. Não há saída, pois a saída mesmo é o conhecimento da verdade. Porque ela nos liberta. E a verdade trazida agora pela pequenina Ardi e sua irmã mais nova Lucy, tão belas quanto qualquer top model, em sua beleza singela e primitiva, nos faz menos arrogantes e prepotentes, menos orgulhosos, nos desnuda, ficamos sem batina, sem paramentos, sem tiaras, sem piercing ou tatuagens, sem botóx ou silicone, sem missioneirismo, sem títulos acadêmicos, sem prêmio Nobel, completamente desnudos diante de um horizonte que se abre permanentemente, ao encontro da verdade.
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Eugenio Lara é arquiteto e designer gráfico, membro-fundador do CPDoc, Centro de Pesquisa e Documentação Espírita e coeditor do site Pense – Pensamento Social Espírita (www.viasantos.com/pense).
E-mail: eugenlara@hotmail.com
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Opinião do Leitor
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O novo CCEPA Opinião
Ao receber, hoje, a edição de outubro do novo Ccepa Opinião, quero aproveitar para cumprimentá-los pela qualidade do trabalho, tanto pela variedade e teor dos artigos publicados, quanto pela nova diagramação e visual em papel branco. Esta última edição, destacando, na capa, o tema unificação x união está ótima. Parabéns.
Nícia Cunha - Cuiabá
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Visita a Fortaleza
Com imensa alegria, externamos nosso carinho e admiração pelos amigos da CEPA e do CCEPA que nos proporcionaram os fatores essenciais que alimentam o espírito, o conhecimento que conduz ao despertar de consciência e o sentimento que consolida os laços de afetividade. Guardaremos em nossa memória espiritual todos os marcantes momentos da presença de cada um de vocês. Sabemos que a família espiritual é bem maior, mas aguardaremos as oportunidades futuras para estreitarmos vínculos duradouros com todos os que fazem esse movimento de ideias. Quiça um dia, como aspira o nobre amigo Milton Medran, toda a família espírita aprenda a conviver fraternalmente em total espírito de tolerância com o pluralismo e diferenças na forma de se praticar o Espiritismo. Assim, essencialmente, nos manteremos todos unidos pelos laços dos mesmos princípios de nossa amada doutrina.
Convidamos os leitores a visitarem nosso blog useece.blogspot.com onde há o registro das atividades que realizamos juntos com os companheiros da CEPA e do CCEPA que visitaram Fortaleza no mês de outubro.
André Luiz Bezerra Borges dos Santos (na foto) – Presidente da S.E.Auxiliadores dos Pobres e Relações Públicas da União das Sociedades Espíritas do Estado do Ceará.

domingo, 4 de outubro de 2009

OPINIÃO - ANO XVI - N° 168 -OUTUBRO/2009

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MOVIMENTO ESPÍRITA - É POSSÌVEL UNIFICA-LO?
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Celebrado em 5 de outubro de 1949, o chamado Pacto Áureo completa este mês 60 anos de existência. Marco decisivo dos históricos esforços da Federação Espírita Brasileira no sentido de unificar o movimento espírita do país, a iniciativa, no entanto, está distante de unir os espíritas brasileiros.
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Cenário: II Congresso da Confederação Espírita Pan-Americana, Rio de Janeiro
Detalhe pouco conhecido e raramente referido: o Pacto Áureo foi celebrado no momento em que, no Rio de Janeiro, se realizava o II Congresso da CEPA (3 a 12/outubro/1949), e só foi possível graças a esse evento que buscava congregar espíritas de todo o continente. A presença de lideranças espíritas de diferentes Estados brasileiros na antiga Capital Federal, participantes do II Congresso Espírita Pan-Americano, presidido por Luis Postiglioni (Argentina) e secretariado por Deolindo Amorim (Brasil), propiciou a efetivação do acordo, envolvendo uniões e federações dos seguintes Estados: Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. No documento, esboçava-se a criação do Conselho Federativo Nacional (CFN), um departamento da FEB que passaria, logo após, a congregar, como órgão unificador, as federações ou uniões espíritas estaduais.

A unificação e sua complexidade
O chamado processo de unificação do movimento espírita logo se revelou complexo, evidenciando questões de difícil equacionamento, ligadas à própria natureza do espiritismo. Fundado por Allan Kardec, em meados do Século 19, o espiritismo é um movimento de ideias que parte da premissa central da imortalidade do espírito e de sua evolução pelas vidas sucessivas, a reencarnação. Kardec definiu-o como uma "ciência que trata da origem, natureza e destino dos espíritos e de sua relação com o mundo material." (O Que é o Espiritismo). Mas, inscreveu entre seus princípios a plena liberdade de interpretação e a permanente necessidade de atualização: "Marchando passo a passo com o progresso, o Espiritismo jamais será ultrapassado por ele, pois se novas descobertas lhe demonstrarem que está errado sobre um certo ponto, ele se modificará nesse ponto, e se uma nova verdade se revelar, ele a aceitará", escreveu Kardec em A Gênese. Isso acaba por afastá-lo das doutrinas estáticas, entre as quais, normalmente, se situam as religiões.

A opção da FEB

A clara opção religiosa feita pela FEB na sua concepção de espiritismo e, especialmente, algumas de suas peculiaridades doutrinárias como a adoção do roustainguismo (doutrina atribuída ao advogado francês Jean Baptiste Roustaing que, entre outras crenças, adotava a do corpo fluídico, não material, de Jesus) trouxeram dificuldades às pretensões unificacionistas e hegemônicas da FEB. Pensadores espíritas fiéis a Kardec, como José Herculano Pires, Deolindo Amorim, Leopoldo Machado e outros, sempre resistiram à hegemonia febeana, criticando sua estrutura "igrejeira". No plano institucional, igualmente, jamais se efetivou a plena integração do movimento espírita ao Conselho Federativo Nacional. Em diversos Estados, o movimento espírita segue representado por mais de uma união ou federação, embora apenas uma delas possa se filiar ao CFN. É o caso do Estado de São Paulo, onde o movimento unificacionista é representado pela União das Sociedades Espíritas do Estado de São Paulo (USE), concorrendo, no entanto, com outras entidades de grande representatividade, como a Federação Espírita do Estado de São Paulo e a Aliança Espírita Evangélica. Em Pernambuco, além da Federação Espírita Pernambucana, registram-se a existência da Comissão Estadual de Espiritismo e da União Espírita Pernambucana. No Ceará, convivem como entidades aglutinadoras de centros espíritas a Federação Espírita do Ceará e a União das Sociedades Espíritas do Estado do Ceará. Inúmeros outros centros e grupos espíritas preferem a total independência, não se ligando a nenhuma união ou federação, o que não lhes retira a identidade espírita.
Em outra vertente, a Confederação Espírita Pan-Americana, entidade de abrangência continental, que adota uma concepção laica e livre-pensadora de espiritismo, passou a exercer forte influência no pensamento espírita brasileiro, na última década. Congregando instituições e pessoas (delegados e simpatizantes) que se distribuem por vários Estados brasileiros, a CEPA opta por definir-se como um livre movimento de ideias. Tem por base as propostas kardequianas, mas sem normatizações a suas filiadas. Dessa forma, abre mão do caráter orientador, fortemente presente no movimento unificacionista, substituindo-o pelo estímulo ao estudo, ao debate e à construção coletiva do pensamento.

NOSSA OPINIÃO

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Unificação e União
Apalavra unificação não fazia parte do vocabulário de Allan Kardec. A palavra união, no entanto, está presente em todo o seu discurso. Em nosso meio, é comum confundirem-se os dois termos, tomando-os como sinônimos. Dessa forma, se o objetivo dos esforços que culminaram com a adoção do Pacto Áureo, há 60 anos, era a união dos espíritas brasileiros, ótimo. Esse objetivo também era da CEPA que, naquele momento, celebrava seu II Congresso Pan-Americano, no Rio de Janeiro.
Na prática, o chamado projeto de unificação não tem contribuído para a união. Antes, a tem dificultado. Kardec sabia disso. Por isso, em Obras Póstumas, deixou esta clara advertência: “Pretender que o Espiritismo seja organizado, por toda a parte, da mesma maneira; que os espíritas do mundo inteiro se sujeitem a um regime uniforme, a uma única maneira de proceder; que devam esperar a luz de um ponto fixo para o qual devam voltar seus olhos, seria uma utopia tão absurda quanto pretender que todos os povos da Terra formassem um dia uma só nação, governada por um chefe único, regida pelo mesmo código de leis, adotando os mesmos costumes”. Advogava a existência de centros gerais, nos diversos países, sem que tivessem entre si “outro laço senão a comunhão da crença e a solidariedade moral, sem subordinação de uns a outros”.
Outra coisa são a união e a fraternidade entre os espíritas. Por isso, também deixou escrito Kardec: “Os diversos centros que se dedicam ao verdadeiro Espiritismo deverão dar-se as mãos fraternalmente, unindo-se para combater seus inimigos comuns: a incredulidade e o fanatismo”.
Unificação, reconheça-se, é uma exigência típica das organizações religiosas. É instrumento de obtenção e manutenção de poder. União é conceito muito mais amplo, compatível com o pluralismo, com o humanismo, onde o respeito e o diálogo criam e sedimentam vínculos de cooperação e fraternidade.
A nosso sentir, é nesse campo que devem se movimentar os espíritas.
(A Redação)
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EDITORIAL
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O QUE SOMOS E O QUE PODEREMOS SER
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A verdade é filha do tempo, não da autoridade.
Francis Bacon

Quantos centros espíritas existem no Brasil? Quantos grupos se reúnem formal ou informalmente para estudar aspectos da doutrina espírita ou praticar a mediunidade nos moldes espíritas? Quantos espíritas, enfim, há em nosso país? Com toda a certeza, nunca teremos respostas a essa indagações. Mais do que a pretensão de reunir todos os dados desse universo, o chamado Pacto Áureo, celebrado há 60 anos, sonhava em unificar todo o universo espírita brasileiro e reunir os espíritas, como o apregoa o Evangelho, em um só rebanho e um só pastor.
Inspirando-se em modelos ainda fortemente vigentes à época, e que tinham por ícones o Estado forte e a Religião centralizadora, reputava-se conveniente dotar o movimento espírita de idêntica estrutura. A intenção justificava-se não só por força daqueles modelos sociais e políticos, mas também pelo fato de o espiritismo representar uma doutrina ainda pouco conhecida da maioria dos brasileiros e que precisaria se adaptar às crenças de seu povo. Para isso, entretanto, era preciso que seus princípios e suas práticas fossem validados e orientados pela autoridade de uma instituição composta por respeitável contingente de conhecedores da doutrina, devidamente ungidos pelo “Alto”.
Os modelos hoje vigentes são outros. O pluralismo ideológico, político e religioso conquistaram o espaço que lhes criou a sociedade civil, laica e democrática. A rigidez normativa das instituições cedeu lugar a posturas e convicções, construídas a partir de fontes as mais diversificadas. O respeito à liberdade de pensamento e de associação, conquista da modernidade consolidada pela sociedade contemporânea, acabou por tornar peremptos os esquemas mais formais das décadas passadas. Fatores como afinidade, informalidade e cogestão passaram a
ter predominância na formação e no funcionamento dos agrupamentos humanos. Isso, como não poderia deixar de ser, reflete-se também no movimento espírita.
De outra parte, a melhor compreensão da doutrina espírita, graças a oportunas e históricas campanhas de estudo, reflexão e debate, fez do espírita brasileiro um sujeito mais questionador e, por isso, mais livre. Já não o satisfazem esquemas prontos e acabados, contendo verdades inquestionáveis, mesmo que oferecidas como revelações do “Alto”. A dúvida e a busca passaram a ser vistas como indispensáveis ao aperfeiçoamento do conhecimento espírita, ainda que se reconheça a existência de postulados básicos formadores de um laço capaz de unir a comunidade espírita como um todo.
São, fora de dúvida, novos ventos que sopram e que reclamam posturas e políticas diferentes daquelas que presidiram o chamado processo de unificação. Antes de organismos orientadores, guardiães da verdade e seus dispensadores, os novos tempos requerem entidades estimuladoras do debate, do congraçamento e da fraternidade.
Significativos avanços já foram conquistados no que diz com a identidade cultural do espiritismo brasileiro. Muito, no entanto, há que ser feito no sentido de uma política interna de alteridade, fraternidade, respeito e cooperação mútua. Será esse, diga-se de passagem, um forte elemento a qualificá-lo ainda mais, também para quem o vê de fora. Vivenciando, no âmago do movimento, esses valores, estaremos também descobrindo o que de mais nobre tem a oferecer a doutrina espírita. E nesse novo contexto, concluiremos, ainda, que, somados, formamos uma comunidade bem mais numerosa, rica e qualificada, do que aquela considerada como “oficial”, pelo universo do chamado movimento unificado.
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OPINIÃO EM TÒPICOS
Milton Medran Moreira
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11º Simpósio Brasileiro do Pensamento Espírita
Dos dez SBPEs até agora realizados por Jaci Regis e sua equipe acho que deixei de comparecer a apenas dois deles. Só não fui em razão outros compromissos inafastáveis, no Brasil ou no Exterior, especialmente ligados à CEPA, entidade que presidi por oito anos. Este ano, novamente, sou forçado a não assistir à 11ª edição daquele importante evento da cidade de Santos. Um convite da União das Sociedades Espíritas do Estado do Ceará para atividades a partir do dia 3 de outubro leva-me, e ao presidente da CEPA, Dante López, àquele Estado do Nordeste brasileiro. Como não é todo o dia que se pode deixar o extremo Sul do Brasil para visitar o Nordeste, aceitei estender por mais alguns dias a estada no Ceará, e, assim, levar a mensagem do espiritismo livre-pensador e progressista, difundido pela CEPA, aos espíritas da região. Para poder cumprir uma agenda que inclui palestras em algumas instituições locais, precisei abrir mão de viajar à Baixada Santista.

O paradigma do espírito
Ausente do XI SBPE, cuja programação tenho à minha frente, devo dar um depoimento: foi-se o tempo em que a concepção de um espiritismo laico, aberto ao debate e à construção permanente do pensamento integrado a todas as áreas do conhecimento, reunia sempre os mesmos, uma meia dúzia de “gatos pingados”. O programa do evento arrola significativa listagem de expositores. Alguns deles não conheço. Provavelmente, participam pela primeira vez de um SBPE. A diversidade temática, que vai da arte à economia, da gestão do conhecimento organizacional à filosofia e à educação, mostra que é possível, sim, contribuir através do paradigma do espírito com todas as áreas do conhecimento e instâncias da vida. Era o que queria Kardec. Foi o que disseram os espíritos a ele, ao abonarem sua proposta de uma ampla abordagem das leis naturais abarcando “todas as circunstâncias da vida”(L.E.q.648).
Eventos como esse arejam o movimento espírita e vão ao encontro dos anseios de um imenso contingente de pessoas. Aquelas que superaram as amarras religiosas, mas também se negam a contemplar o fenômeno da vida por um prisma meramente biológico ou materialista.

Um conhecimento que transforma
Pessoas com essa estrutura de pensamento são, hoje, bem mais numerosas do que supomos. Por tradição ou por outras contingências sociais ou culturais, se declararão pertencentes a esta ou àquela religião. Poderão estar plenamente integradas a um centro espírita tradicional, ministrando passes ou recitando parábolas evangélicas que decoraram. Mas, no âmago de sua alma, sentem que a proposta espírita só cumprirá seus objetivos no momento em que for capaz de sair dos centros espíritas e ganhar todos os setores da vida, oferecendo um novo paradigma ao conhecimento. A famosa sentença de Karl Marx “até agora, os filósofos trataram de interpretar o mundo de diferentes maneiras, agora cabe transformá-lo” adapta-se como uma luva à proposta espírita. O espiritismo é admirável justamente por ser um conhecimento que, uma vez assimilado, conduz necessariamente à transformação pessoal e social. A religião nunca foi capaz de fazer isso porque retirou da imanência do ser a sua transformabilidade para relegá-la à transcendência: o reinado do bem e do justo não se daria, jamais, neste mundo.

Um novo tempo
Entretanto, é preciso reconhecer: as estruturas espíritas não estão preparadas a desempenhar esse papel. Não estão aparelhadas para atrair o imenso contingente de pessoas que vivem essa inquietação. Os poucos núcleos espíritas com esse perfil progressista e transformador, por sua vez, não têm demonstrado capacidade de se aglutinarem em um organismo que lhes reconheça a liberdade de criação e de autogestão. A CEPA busca preencher esse requisito. E o faz sem maiores exigências. Sem, por exemplo, impor às entidades que a ela aderem o dever de se desvincularem da rede organizacional a que estejam eventualmente filiadas. Não se faz espiritismo sem liberdade.
Vou levar essa mensagem a uma união espírita estadual que hoje congrega 58 centros espíritas no Ceará. Por isso, e creio que justificadamente, não estarei no SBPE e nem na Assembleia Geral que, naquele mesmo evento, reunirá os integrantes da Associação Brasileira dos Delegados e Amigos da CEPA no Brasil. Em diferentes latitudes geográficas, estaremos vivenciando o novo tempo que todos queremos para o espiritismo.

NOTÍCIAS

CEAK/Santos comemorou 65 anos
O Centro Espírita Allan Kardec, dinâmica instituição espírita filiada à CEPA, com sede na cidade de Santos, SP, completou, no último dia 1º de setembro 65 anos, aniversário marcado por uma série de atividades:
As atividades comemorativas iniciaram na noite de 26 de agosto, quando o jornalista José Rodrigues (na foto),um dos mais antigos colaboradores da instituição, fez emocionado relato sobre a “Comunidade do CEAK”, registrando aspectos históricos da Casa.
Na noite seguinte (27), foi a vez de Vladimir Coelho Grijó apresentar trabalho resultado de intensa pesquisa sobre a “Vida e Obra de Ernesto Bozzano”. Na noite de sexta-feira (28), Jailson Lima de Mendonça, do C.E.Ângelo Prado, de Santos, discorreu sobre o tema “Das Mesas Girantes à Transcomunicação Instrumental”.
As festividades se encerram no sábado, com atividades envolvendo todos os colaboradores da instituição, sob a denominação de “Família CEAK em Foco”.
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Presidente do CCEPA participa
do XI Simpósio Brasileiro do Pensamento Espírita
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Rui Paulo Nazário de Oliveira, presidente do Centro Cultural Espírita de Porto Alegre, depois de participar de Mesa Redonda, em Fortaleza, em 4 de outubro, atividade da CEPA em conjunto com a União das Sociedades Espíritas do Ceará, viaja a Santos/SP para assistir ao 11º SBPE. Na mesma oportunidade, Rui, que é vice-presidente da Associação Brasileira de Delegados e Amigos da CEPA, participará da Assembleia Geral daquela entidade que elegerá nova Diretoria para o biênio 2009/2010.
Do quadro de associados do CCEPA também deverá participar do SBPE e da reunião da Associação dos Amigos da CEPA, a colaboradora Margarida da Silva Nunes, hoje radicada em Florianópolis.

Medran fez pré-lançamento no CCEPA
e será o palestrante de novembro
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No último dia 13 de setembro, em almoço de confraternização na sede do Centro Cultural Espírita de Porto Alegre, o Diretor de Comunicação Social do CCEPA, Milton Medran Moreira, fez o pré-lançamento de seu livro “O Espírito de um Novo Tempo ou Um Novo Tempo para o Espírito” (Editora Imprensa Livre), que terá lançamento oficial na Feira do Livro de Porto Alegre, em sessão de autógrafos agendada para 7 de novembro, às 14 horas.
Medran será o palestrante da primeira segunda-feira de novembro (dia 5) às 20h30, no auditório do CCEPA, enfocando temas ligados à sua última obra, em conferência que leva o título de “Um novo tempo para o espírito”.
O novo livro de Medran já está à disposição na Livraria do CCEPA (20 reais) e, na Feira do Livro (Praça da Alfândega, de 30/10 a 15/11), poderá ser adquirido na barraca da Editora Imprensa Livre, juntamente com outras obras do autor e, também, os livros da CEPA, editados pela Imprensa Livre, sob a coordenação do CCEPA: “A CEPA e a Atualização do Espiritismo”, “Espiritismo – o Pensamento Atual da CEPA” e “Da Religião Espírita ao Laicismo, a Trajetória do Centro Cultural Espírita de Porto Alegre”, de Salomão Jacob Benchaya
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ENFOQUE
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Ano da França no Brasil:
O Legado Kardequiano
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David Castilhos - Historiador
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A metade do século XIX é marcada por estranhos fenômenos. Em clubes, cabarés e lares de Paris, pessoas se reúnem em torno de mesas que se movem. O apelido pega: tables tournantes.
Diversos cientistas se interessam pelas tais mesas, entre eles Faraday e que, em 1853, publica um artigo sobre suas observações.
No entanto, o que ocorre durante este período acaba por afastar a maioria dos homens de ciência, inicialmente curiosos. Através de um sistema de comunicação chamado tiptologia (certa quantidade de batidas representavam determinados tipos, letras), as tables começam a “falar”. E elas disseram que não se movimentavam sozinhas. Sofriam impulsos das almas de pessoas que já haviam morrido.
Afastaram-se os cientistas profissionais, principalmente, tudo leva a crer, por tratar-se de elementos sob domínio da superstição e da religião: vida após a morte, manifestação de espíritos, etc.
Mais de mil anos de controle exercido pelos dogmas religiosos foram o suficiente para que o bom senso recusasse qualquer indício de retorno à superstição.
A Razão optou por abster-se das pesquisas. Era arriscado. Além do mais, existia (como ainda existe) um universo de mistérios da matéria a ser desvendado pela ciência. O sobrenatural podia esperar.
Em 1855, os fenômenos já haviam se modificado. De tables tournantes, o lápis era o instrumento que deslizava, ora em cestas de vime e pranchetas, ora nas mãos de pessoas tidas como intermediárias dos Espíritos, isto é, médiuns.
É neste contexto que surge um lionês que morava em Paris, o pedagogo e estudioso do Magnetismo Animal, Hipollyte Leon Denizard Rivail. Não era médium, mas observador dos fenômenos.
Recolhendo textos obtidos pela escrita atípica, elaborando hipóteses, organizando as experiências e abrindo questionamentos, Hipollyte dá nome à ciência por ele criada. Visto que seu objeto era o Espírito, chamou-a Espiritismo.
Obviamente, o mundo acadêmico a rejeitou.
Ao publicar seu primeiro livro de Espiritismo, Hipollyte usou um pseudônimo: Allan Kardec.
Em todas as enciclopédias é este pseudônimo que remete à definição fundador do Espiritismo, ou Doutrina Espírita.
Allan Kardec nunca esteve no Brasil, no entanto suas obras aqui chegaram rapidamente, devido à intensa relação cultural de nossa nação com a França.
Políticos, médicos, advogados, militares, artistas… eram muitos os ofícios daqueles que se dedicavam ao Espiritismo deste lado do Atlântico.
Com o tempo, no Brasil, a nascida ciência torna-se mais uma religião entre tantas de nosso solo marcado pelo misticismo. Este processo daria uma boa pesquisa. Mas, por ora, nos importa perguntar: o que Allan Kardec e sua doutrina têm de especial que, além das massas sedentas por novidades religiosas, agradou pessoas mais cultas no final do século XIX e início do século XX?.
O espiritismo tem relações com o saint-simonismo e sua busca pelo positivo. Por mais estranho que isso, hoje, nos possa parecer, Allan Kardec procurou uma análise racional de um fato que julgava como certo, real, positivo: a comunicação das almas dos mortos com os vivos.
Usou de método, ansiava por objetividade, buscava a elaboração de leis. Fez uma tentativa de retorno ao espiritual sem superstição.
Outro ponto que sugere o porquê de Allan Kardec ter caído no gosto de muitos brasileiros é o seu pensamento, ou melhor, o pensamento que resulta das suas observações, coleta de dados e, obviamente, suas reflexões.
O Espiritismo propunha o progresso da alma e, consequentemente, o progresso social.
Entendia que a reencarnação era mais lógica que uma única vida.
Defendia uma busca por progresso moral que permitiria reencarnações menos difíceis no futuro.
Além disso, os escritos mediúnicos diziam não haver céu ou inferno. A felicidade ou infelicidade, a paz de consciência ou o remorso seriam estados psicológicos metaforicamente chamados de céu ou inferno. Cada um seria o responsável por construir estes estados em si mesmo.
Se estes, entre outros pontos, agradaram a alguns, desagradaram a muitos.
Se os cientistas profissionais desdenharam Allan Kardec, os religiosos tradicionais viram suas idéias como aberrações que intentavam retirar o poder das Igrejas como tradicionais intermediárias das “coisas de Deus”. Suas obras acabaram no Index.
Seu nome e sua doutrina são citados no Brasil até hoje (mesmo que em expressões populares). Ao tentar retirar da superstição fenômenos extraordinários, criou uma doutrina sofisticada e interessante que, independente das possíveis crenças religiosas que adotemos, merece ser conhecida.

OPINIÃO DO LEITOR

Se o Estado não fosse laico
No movimento da fé raciocinada, onde hoje raramente as pessoas têm sido levadas a raciocinar e onde não raro a atitude de raciocinar é malvista, o artigo de Luiz Antônio de Sá “Se o Estado não fosse laico, será que os centros espíritas estariam abertos?” (CCEPA-Opinião – agosto/2009) é uma peça admirável. Com a permissão do autor, vou enviá-lo à publicação por um centro espírita de Goiânia, que me pediu um artigo para seu jornal.
Luiz Signates – Goiânia/GO

Qualidade editorial
Na condição de assinantes deste jornal, queremos cumprimentar a equipe pela qualidade das matérias mensalmente publicadas. Continuamos sendo os grandes admiradores do trabalho da equipe.
Roberto e Dora Gandres – Rio de Janeiro/RJ.

Novo ccepa Opinião
Amigo Medran: Meus cumprimentos a ti e a toda a equipe, pelo novo visual de nosso querido Opinião. Sei muito bem das dificuldades, falta de tempo e de recursos financeiros que todos enfrentam para levar adiante essa mensagem. Gostaria de transmitir a todos meu abraço e o meu orgulho de haver convivido com os amigos do CCEPA por tantos anos. Mesmo vivendo distante, preservo esse vínculo como associada da instituição e como assinante deste jornal. Um beijo afetuoso em cada um.
Margarida da Silva Nunes – Florianópolis/SC.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

OPINIÃO - ANO XVI – N°167 – SETEMBRO/2009

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QUANDO A ALMA RECORDA

Duas hipóteses de memória extracerebral em crianças, nos Estados Unidos, voltam a chamar a atenção de pesquisadores para o fenômeno exaustivamente estudado pelo psiquiatra Ian Stevenson, da Universidade da Virginia, no século passado: crianças que recordam de sua vida anterior.
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O policial que retorna na personalidade do neto
“Quando você era pequena e eu era seu pai, você também fazia bagunça e eu nunca lhe bati!”, foi a surpreendente resposta dada por Ian Hagedorn (3 anos) à mãe, Maria, quando esta ameaçou bater nele se não parasse de fazer barulho.
Não seria a primeira vez que o menino de Pensacola, na Flórida, afirmaria ser a reencarnação do avô. Em outra oportunidade, perguntou à mãe qual era o nome do gatinho que ele lhe havia dado quando ela era criança:
- Maniak, respondeu Maria.
- Não, esse era o pretinho, quero saber o nome do outro, o branco – rebateu Ian, fazendo a mãe recordar que eram dois os gatinhos dados a ela pelo pai: Maniak e Boston.
O avô de Ian era um policial, morto com um tiro no peito, um ano antes de seu nascimento. A lesão atingiu-lhe uma artéria pulmonar. Ian nasceria com uma grave deficiência respiratória na mesma artéria. Precisou fazer seis cirurgias antes de completar 4 anos. Aos 5, vive sob permanente assistência médica, devido a dificuldades respiratórias congênitas.
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Morreu em acidente aviatório,
mas a paixão por aviões continua
O interesse do garoto James por aviões intrigava o casal Leiningers, de uma pequena cidade do estado de Lousiana. Desde pequenino, ele só queria falar em aeronaves. À noite, tinha pesadelos e gritava muito dizendo estar num avião que caía em chamas. O primeiro brinquedo por ele escolhido, adivinhem qual foi? Um avião, claro. Começou a fazer referências a um acidente aviatório, ocorrido muito antes de seu nascimento, na II Guerra Mundial, em 1945, dando o nome do piloto, coincidentemente também chamado James. A insistência era tanta e os dados trazidos pelo menino tão precisos que seu pai foi aos arquivos da Aeronáutica para conferir. De fato, um tenente de nome James M. Houston, de 21 anos, constava como tripulante de um avião abatido na batalha de Iwo Jima, em 3 de março de 1945.
Hoje, James Leiningers está com 11 anos. É o personagem central do livro “A Alma Sobrevivente: a reencarnação de um piloto de combate na II Guerra Mundial”, escrito por seus pais e que faz sucesso nas livrarias nos Estados Unidos. Um programa da TV ABC fez ampla reportagem com a família. Os pesadelos cessaram desde que o garoto e sua família, com a ajuda de uma terapeuta, entenderam que James era a reencarnação do jovem piloto morto na guerra.
Para conhecer um pouco mais sobre essa história real e fascinante, basta conferir www.youtube.com/watch?v=AQcegAnZwe8 . Ali, o pai do garoto afirma que antes era um cético: não acreditava em nada que se referisse à vida após a morte. Graças à experiência com seu filho, passou a ver na reencarnação a grande lei, capaz de explicar os enigmas nem sempre esclarecidos pela ciência e pela religião tradicional. (A Redação)
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Nossa Opinião

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Razão e Ciência
Já havíamos selecionado estes dois casos sugestivos de reencarnação, quando a mídia se ocupou de outro não menos expressivo. O programa Fantástico (Rede Globo, 23/8/09) exibiu reportagem com Ákrit Jáswal, conhecido como “o pequeno gênio da Índia”. Aos 7 anos, em um vilarejo da Cordilheira dos Himalaias, ele entrou para a história como o mais jovem cirurgião do mundo, ao fazer delicada cirurgia que recompôs os movimentos da mão de uma garota, vítima de graves queimaduras. Hoje, aos 16, Ákrit está formado em ciências biológicas e começa a fazer mestrado nessa área.
Casos semelhantes se multiplicam no mundo todo. A ciência não tem uma explicação plausível para o fenômeno, a menos que, definitivamente, se considere a palingênese como genuína categoria científica. Diante da multiplicidade das ocorrências e da escassez de pesquisadores dotados de autênticos espírito e método científicos, corre-se o risco de se desperdiçarem valiosos materiais de estudo. Karl E.Muller, autor de “A Reencarnação Baseada em Fatos” aponta o fenômeno da genialidade precoce como forte indício da reencarnação.
De qualquer sorte, são sempre os fatos que forçam a pesquisa científica. Especialmente quando, no meio em que ocorrem, as partes resistam às explicações fundadas no mistério e na sobrenaturalidade e busquem na razão e nas leis naturais a chave para o fenômeno. Racionalidade é sempre uma boa aliada da ciência.
(A Redação)
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Editorial
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Liberdade religiosa,
deturpação e estelionato
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Parecemos tão livres e estamos tão encadeados...
Robert Browning

"Por históricas distorções sedimentadas na cristandade,
fé, poder e dinheiro têm sido fatores difíceis de se dissociarem".


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A liberdade de crença é uma das grandes conquistas da modernidade. Por longos 1000 anos, estivemos, no âmbito da cristandade, condenados a professar um único sistema de fé. Naquele 31 de outubro de 1517, o monge agostiniano Martinho Lutero afixou na porta da Igreja do Castelo de Wittenberg as 95 teses questionando alguns dogmas e práticas da Igreja de Roma. Seria o marco inicial da Reforma Protestante, graças à qual a cristandade do Século XVI e seguintes se libertaria do jugo da crença única.
Desde então, têm se multiplicado por todo o mundo as igrejas cristãs. Algo positivo, pois, preservados alguns dogmas fundamentais com os quais todas elas comungam, abriu-se o leque do pluralismo religioso, estimulando-se, teoricamente, a liberdade de pensamento. Mas, por históricas distorções sedimentadas na cristandade, fé, poder e dinheiro têm sido fatores difíceis de se dissociarem. Mesmo que, ao curso de toda a história das igrejas, almas nobres, fiéis à autêntica mensagem de Jesus de Nazaré, hajam combatido aquela espúria associação, o certo é que a proliferação das igrejas, notadamente nos últimos 50 anos, tem se orientado justamente por essa fórmula. É ela a própria garantia de seu êxito.
As bases a sustentarem o modelo desse cristianismo de nosso século partem dos seguintes pressupostos: a fé é inquestionável, pois se funda na própria palavra de Deus; o poder emana diretamente da autoridade divina, a serviço da qual cada uma dessas igrejas afirma estar; o dinheiro empregado na “obra de Deus” retornará ao doador, multiplicado em bens de consumo, saúde, prosperidade e venturas no amor, benesses só concedidas aos crentes. Estes, por acréscimo, ainda obterão a salvação eterna.
O marketing empregado se afina com a economia de mercado, adotada por uma sociedade ainda movida por políticas excludentes, onde uns poucos são agraciados pelos bens da vida e muitos outros condenados à marginalidade. Enquanto esse modelo perdurar, as Igrejas cultivadoras da teologia da prosperidade seguirão crescendo, à custa de vítimas incautas ou de espíritos atrasados, presos às malhas do egoísmo e da ignorância. A grande motivação para a adesão a esse sistema de fé é o apelo que se faz a um sonhado “upgrade” social e econômico.
Poderão se inscrever essas práticas nos modernos postulados da liberdade de crença? Com certeza não. Trata-se, antes, de um verdadeiro estelionato da fé, astuciosamente engendrado, no seio da sociedade moderna e de suas garantias de liberdade de pensamento e crença. O modelo defrauda tanto os magnânimos projetos dos reformadores religiosos, como dos humanistas, livre-pensadores e laicos, que, no nascer da modernidade, ousaram contestar coisas como vendas de indulgências, autoritarismo e corrupção religiosa.
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Opinião em Tópicos

Milton Medram Moreira
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Um território para a IURD?
Muito tem se falado no crescimento da Igreja Universal do Reino de Deus, exportada do Brasil para praticamente todos os países da América Latina e com forte influência também nos Estados Unidos. Pois, então, imaginemos esta hipótese: o bispo Edir Macedo recebe do governo americano uma área em pleno coração de Miami e lá instala o Estado da IURD. Reconhecida a soberania do novo estado pela ONU, Macedo estaria habilitado a fazer tratados com os demais países do mundo.
Absurdo? Claro. Impensável nos tempos de hoje. Seria o estado teocrático, regido por leis religiosas, a se valer das prerrogativas conquistadas pela sociedade laica e civil e, por aí, se imiscuindo, via direito internacional, no ordenamento jurídico de outras nações.

O Estado do Vaticano
Cada vez que um acordo ou tratado internacional é celebrado entre um país democrático e o Estado do Vaticano é mais ou menos isso que acontece. Desde 1929, como resultado do Tratado de Latrão, celebrado entre Mussolini e Pio XI, um território de pouco mais de um quilômetro quadrado, incrustado no coração de Roma, sede administrativa da Igreja Católica, constituiu-se em nação independente, reconhecendo-se no chefe daquela igreja poderes políticos antes exercidos sobre os diversos Estados Pontifícios, espalhados pela atual Itália. Se, naquele momento, o confinamento do poder temporal do Papa ao minúsculo território, era um avanço no processo de laicização da lei e do poder, hoje a simples presença de um estado teocrático no contexto do direito internacional representa uma incômoda ingerência da religião sobre a política dos povos. Um estado teocrático, embora politicamente institucionalizado, é sempre um estado religioso, regido não pelo consenso dos valores humanos, mas por dogmas imutáveis impostos pela fé.

A Lei Geral das Religiões
Só às vésperas de sua apreciação pela Câmara Federal, é que a opinião pública teve a atenção voltada para o chamado Estatuto Jurídico da Igreja Católica no Brasil, um acordo celebrado entre Lula e Bento XVI em novembro do ano passado. Por meio dessa concordata, consagram-se alguns privilégios à Igreja Católica, no campo do ensino religioso em escolas públicas, no reconhecimento do casamento religioso e sua anulabilidade a partir das leis canônicas, na isenção de tributos a ministros religiosos e na proteção pública de bens da Igreja.
Um tratado internacional celebrado entre dois chefes de Estado não pode ser modificado pelo Legislativo. Ou é aprovado ou rejeitado inteiramente. As demais igrejas lideraram um movimento de rejeição, alegando privilégios a uma crença em detrimento das outras. Para resolver o impasse, criou-se, ligeirinho, uma outra lei, batizada de Lei Geral das Religiões. O que fez esta? Simplesmente estendeu a todas as demais igrejas as prerrogativas concedidas ao Estado do Vaticano.

O acordão
Dia 27 de agosto último, em votação simbólica, depois de brevíssima discussão, o tratado Lula/Bento XVI foi aprovado na Câmara. Antes da votação, um deputado evangélico, autor do projeto de lei que estende o acordo às demais igrejas, esfregava as mãos, dizendo: “Está tudo acertado. Nós aprovamos o projeto deles e eles aprovam o nosso.” (O Globo, on- line – 27/8). Quer dizer: agora é assim, privilégios concedidos a uma religião devem ser dados a todas as demais. E como não há limites e nem critérios para a criação de igrejas, a fé volta a reinar soberana, ameaçando a vigência dos valores humanistas e republicanos. Na prática, igreja alguma precisa instituir um Estado, como a Santa Sé, para garantir sua presença na formulação das leis. É a volta do Estado teocrático por vias transversas.
É verdade que, uma vez consolidado o acordão na Câmara, resta a esperança de que o Senado o barre. Uma bela oportunidade, aliás, de o Senado Federal começar a resgatar sua credibilidade perante a opinião pública nacional.
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Notícias
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Alteridade e fraternidade tiveram
qualificado Seminário
.“O espiritismo requer instituições protetoras da liberdade
e não fiscalizadoras do pensamento".

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Com esse e outros conceitos estimulando a fraternidade, a alteridade e o cultivo da liberdade de pensamento no meio espírita, Luiz Signates conduziu, na tarde de 16 de agosto, o Seminário Espiritismo e Fraternidade, no Instituto Espírita 3ª Revelação Divina, de Porto Alegre. Jornalista e Doutor em Comunicação, Signates é professor da Faculdade de Comunicação Social da Universidade Federal de Goiás.
Quase uma centena e meia de espíritas gaúchos participaram do evento. O Centro Cultural Espírita de Porto Alegre esteve presente com cerca de 10 de seus integrantes, entre eles o ex-presidente da CEPA, Milton Medran Moreira. Ao início dos trabalhos foram chamados à mesa o presidente do CCEPA, Rui Paulo Nazário de Oliveira e uma integrante da Diretoria da Federação Espírita do Rio Grande do Sul. Na oportunidade, o presidente do IETRD, Aureci Figueiredo Martins fez menção à presença do companheiro Salomão Jacob Benchaya, ressaltando tratar-se de uma figura marcante da história do movimento espírita gaúcho, por haver introduzido, quando de sua passagem pela FERGS, o Estudo Sistematizado da Doutrina Espírita.
Após cerca de quatro horas de exposição e debate, o evento foi encerrado com uma apresentação de peças líricas cantadas pelo tenor Pedro Szobot, da Orquestra Sinfônica de Porto Alegre. (Na foto, Signates, Aureci, Rui Paulo e Salomão)

Sociedade de Estudos Espíritas Vida -
cultura e modernidade em Pelotas
O Diretor de Comunicação Social do Centro Cultural Espírita de Porto Alegre, Milton Medran Moreira, teve a oportunidade de conhecer, no último dia 29 de agosto, as modernas e amplas instalações da Sociedade de Estudos Espíritas Vida, da cidade de Pelotas/RS. Ali, proferiu conferência sobre o tema "Conhecer para Transformar" para cerca de 150 pessoas, antecedida de uma apresentação do coral da Universidade Federal de Pelotas.
Juntamente com sua esposa, Sílvia, Medran retornou entusiasmado com o interesse e a participação dos frequentadores da instituição que tem entre seus dirigentes o casal Eduardo Born e Maria Cristina Vargas (na foto, juntamente com Milton Medran) . A casa, com apenas 10 anos de existência, desenvolve qualificado programa doutrinário e cultural e costuma convidar, como expositores, pensadores dos mais diferentes segmentos espíritas.
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Homero no CCEPA falará sobre
Determinismo e Livre-Arbítrio

A conferência mensal da primeira segunda-feira de outubro no CCEPA estará a cargo do advogado e líder espírita pelotense Homero Ward da Rosa.

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Enfoque

“O Espiritismo, na sua essência, é fortemente
vocacionado para a conciliação dos saberes”.


CONCILIAÇÃO DE SABERES
Maurice Herbert Jones
Centro Cultural Espírita de Porto Alegre
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O mundo medieval repousava em paz, embalado pela convicção da vizinhança entre a terra e Deus e a constante solicitude da divindade para com os homens quando uma voz soou na Polônia dizendo que o nosso planeta, almofada de repouso para os pés de Deus e ponto escolhido para sua peregrinação redentora, não passava de pequenino satélite de um pequenino sol.
Rompendo com a concepção geocêntrica e tirando a terra de sua posição privilegiada no universo a obra revolucionária do monge Nicolau Copérnico (1473-1543) tornou-se um dos mais importantes marcos na caminhada do homem em busca do domínio da natureza.
Com esta obra começou a modernidade. Começa o secularismo. Os deuses que até então haviam cuidado dos homens, percebendo sua maioridade, começaram a desaparecer, deixando-os entregues aos seus próprios recursos.
A partir daí, precipita-se a história. O homem tem pressa. Crescentemente liberto da tradição, indiferente aos dogmas, reorienta seu pensamento. Não mais a simples meditação contemplativa ou a oca especulação acadêmica e sim o inquérito dedutivo das leis naturais.
O homem, impaciente, quer construir seu paraíso aqui, na terra.
O primeiro filósofo a reconhecer como propósito da ciência o bem estar do homem, isto é, produzir, em última análise, descobertas que facilitassem sua vida, foi o insigne Francis Bacon (1561- 1626), lorde chanceler da coroa britânica, arauto da ciência moderna que, na opinião do iluminista Denis Diderot foi o homem que, ”numa época na qual era impossível escrever a história daquilo que os homens sabiam, traçou um mapa do que eles deveriam aprender”.
A exaltação baconiana da tecnologia é, mais tarde, compartilhada com entusiasmo pelo Conde de Saint-Simon, (Sansimonismo) e por Auguste Comte (positivismo) no século XIX. E assim tem início a era tecnológica. Um racionalismo tecnicista vai a pouco e pouco superando a visão humanista tão duramente conquistada.
No nosso tempo a tecnologia é dominante, sobretudo nas “ilhas de civilização” do planeta. O deus antropomórfico e seus sacerdotes ungidos que nos protegiam e orientavam estão sendo substituídos pelos novos deuses da tecnologia aos quais também nos entregamos, mesmo sem entendê-los. Continuamos assim alienados e dependentes do mistério e de seus novos sacerdotes, intérpretes de bulas e manuais escritos em linguagem estranha, hermética, só acessível a iniciados.
Diante de qualquer problema, só a eles se pode recorrer para exorcizar o mal, para nós, metafísico.
Mesmo nas áreas mais civilizadas do planeta a tecnologia é algo tão misterioso como a santíssima trindade. Usufruímos suas benesses, mas não dominamos seus princípios. Quanto mais benefícios nos oferecem, mais complexos e distantes do nosso entendimento se tornam.
É verdade que já na primeira metade do século passado começou a manifestar-se o que hoje se chama o problema da tecnologia, isto é, o problema que nasce das conseqüências que o desenvolvimento técnico do mundo moderno traz à vida individual e associativa do homem.
Os críticos da tecnologia, entre outros o escritor francês Albert Camus, identificam na máquina a causa direta ou indireta da decadência espiritual do homem. Segundo eles o mundo das máquinas é um mundo sem alma, nivelador, mortificante em que os valores do espírito foram substituídos pelo culto dos valores instrumentais e utilitários.
Estas acusações ou denúncias, mesmo sendo exageradas, põem a nu um problema efetivo que é o da acomodação do homem ao novo ambiente natural e humano produzido pela técnica.
A surpreendente expansão do fundamentalismo religioso que, na sua vertente cristã, tem base e inspiração na nação mais rica, industrializada e poderosa que o mundo conheceu, precisa ser encarada como um desafio à nossa capacidade de compreender o homem e suas motivações.
Não podendo dominar nem compreender os novos deuses que lhes são impostos, parcelas imensas da população buscam refúgio e segurança nos mais recônditos e escuros espaços de idéias mais antigas, mais familiares. Numa tentativa para ressuscitar ou manter vivos seus velhos e moribundos deuses que, bem ou mal, ofereciam identidade e alguma segurança, erguem muros e cavam trincheiras isolando-se em suas frágeis certezas.
Esta é, talvez, a gênese deste recuo, deste retorno a modelos que pareciam superados.
Se o irracionalismo espiritualista representado pelo fundamentalismo religioso é uma resposta à desumanização provocada pelo racionalismo tecnicista, uma síntese dialética se faz necessária e, talvez, urgente para superar o conflito, conciliando os aspectos mais nobres do espiritualismo e da tecnologia.
Ora, esta síntese que, para compor a tríade dialética, poderíamos denominar racionalismo espiritualista, já existia desde a metade do século XIX, com o humanismo espiritocêntrico proposto pelo Espiritismo. Kardec foi contemporâneo de Saint-Simon e Comte e, certamente, não era avesso ao progresso tecnológico. Por outro lado, pôde também vivenciar os problemas sociais, econômicos e políticos provocados pela revolução industrial, um pouco mais tardia na França. Seu gênio percebeu o conflito e desenhou um caminho para sua superação. O Espiritismo, na sua essência, é fortemente vocacionado para a conciliação dos saberes. Sua natureza sintética é evidente no permanente esforço do codificador para configurá-lo como um espaço onde fosse possível superar dialeticamente os paralisantes conflitos entre fé e razão e ciência e religião.
Onde teremos errado na compreensão e divulgação do pensamento espírita para que, um século e meio depois de seu lançamento, essa oportuna e inteligente síntese conceptual continuasse ignorada e, portanto, sem poder conquistar o que Kardec chamava, na conclusão do Livro dos Espíritos, “direito de cidadania entre os conhecimentos humanos”?

sábado, 8 de agosto de 2009

OPINIÃO - ANO XVI - N° 166 - AGOSTO/2009

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Uma tarde para refletir sobre
Espiritismo e Fraternidade
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Agosto/16 - Domingo - das 13h30 às 18h30
Luiz Signates, um dos mais qualificados pensadores espíritas do
Brasil, ministra o seminário sobre “Espiritismo e Fraternidade”
no IETRD com a participação de integrantes do Centro Cultural
Espírita de Porto Alegre.


O expositor
Luiz Signates é jornalista, professor da Faculdade de Comunicação e Biblioteconomia da Universidade Federal de Goiás, mestre em comunicação pela Universidade de Brasília e doutor em comunicação pela Escola de Comunicação e Arte da Universidade de São Paulo. Presentemente, ministra curso de pós-graduação na Universidade do Vale do Rio do Sinos (São Leopodo/RS). No meio espírita, foi vice-presidente de comunicação social da Federação Espírita do Estado de Goiás, colaborador da ABRADE e da CEPA.
Intelectual e pensador fecundo, Signates tem se destacado no meio espírita por defender ideias de alteridade e diálogo entre todos os segmentos espíritas, independentemente das siglas e organizações institucionais. Em artigo publicado no livro “Espiritismo: O Pensamento Atual da CEPA” (Ed.Imprensa Livre/2002), sob o título de “Nós não é o plural de eu” destaca que “não é incomum, nos meios filosóficos e religiosos, falar-se de fraternidade...de modo antifraterno”, e acrescenta: “No espiritismo brasileiro, por exemplo, a maioria das atitudes de 'defesa da pureza doutrinária' inclui-se no caso em que a prática da fala acaba negando os seus próprios conteúdos, deixando-os vazios de consistência ética”.
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Público alvo
O seminário é organizado e sediado por uma entidade filiada à Federação Espírita do Rio Grande do Sul: o Instituto Espírita Terceira Revelação Divina, cuja atuação tem se inspirado em uma visão sempre aberta ao pluralismo e ao diálogo. A partir do momento em que foi anunciado o evento, o Centro Cultural Espírita de Porto Alegre, filiado à Confederação Espírita Pan-Americana, mobilizou seus dirigentes e associados para dele participarem. Dessa oportuna iniciativa espera-se uma participação efetivamente plural, alteritária e voltada ao diálogo e à vivência da autêntica fraternidade espírita.
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A programação
Além da programação temática com Signates, divulgada pelo IETRD e que reproduzimos abaixo, está sendo anunciada uma breve apresentação do tenor Pedro Szobot, da OSPA – Orquestra Sinfônica de Porto Alegre, com músicas de seu repertório com acompanhamento de playback.
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13h30 Recepção Recepção aos participantes
13h45 Abertura Apresentações
14h Palestra/ Jesus e a alteridade: a singularidade
Diálogo do Sermão da Montanha
15h Palestra/ Kardec e a alteridade: o exemplo do
Diálogo codificador para a ética espírita.
16h Lanche Intervalo de 30 minutos
16h30 Palestra/ Saberes e religiosidades: a fraternidade
Diálogo como experiência de ouvir e aprender
17h30 Palestra/ Espiritismo e globalização: a inserção social
Diálogo espírita como fator de transformação humana
18h30 Encerramento - Palavras finais.
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Nossa opinião
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Há 15 anos defendemos esta idéia.
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Este periódico completa 15 anos com esta edição. Nascido em um momento de definições e afirmações dentro do movimento espírita, tornou-se porta-voz de uma instituição que privilegia o livre-pensamento e a prática de sua expressão, no meio espírita, em clima de fraternidade e respeito.
Por isso, no momento em que celebramos mais este aniversário e introduzimos algumas modificações neste mensário, voltando, inclusive, a disponibilizá-lo em papel branco, como originariamente, gratifica-nos abrir esta edição com a notícia de um evento que trata de fraternidade na seara espírita. Fazendo-o, aproveitamos a oportunidade para reafirmar o verdadeiro papel deste modesto periódico: o de estimular o conhecimento e a vivência do espiritismo, em todos os seus aspectos e consequências.
“Não se pode legitimamente falar de espiritismo sem praticar sua ética”, escreveu Signates no livro “Espiritismo: o pensamento atual da CEPA”.
Muito mais que uma palavra, fraternidade é um valor a ser vivenciado, no meio espírita. E para vivenciá-lo é fundamental que se abram espaços de encontro, convivência e diálogo.
Cumprimentamos o Instituto Espírita Terceira Revelação Divina – IETRD – pela feliz iniciativa. O Centro Cultural Espírita de Porto Alegre – CCEPA – lá estará para participar ativamente. E este periódico, para documentar o evento, como uma de suas pautas, na abertura de seu 16º ano de vida.
(A Redação)
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Editorial

Ética na Política
“Ética nada mais é que reverência pela vida”
Albert Schweitzer

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Um manifesto firmado por cerca de uma dezena de instituições nacionais ligadas ao Direito, difundido pela Internet, convocava para um Fórum pela Ética na Política, e marcava um encontro para o dia 27 de julho, no Pacaembu, em São Paulo, denominado “Reunião com os Operadores do Direito”.
O grupo, declarando não ter presidente ou diretores, mas apenas coordenadores, está impulsionando a criação de um movimento para mobilizar a sociedade civil, formadores de opinião e cidadãos em geral “para pôr fim à degradação do Senado, reduzir drasticamente seu orçamento e o número de funcionários da instituição e lutar por uma reforma política que propicie a democratização do poder público, maior controle sobre parlamentares e dirigentes, maior transparência e etc.”.
Ao produzirmos este editorial não tínhamos ainda conhecimento do resultado do encontro. Assim mesmo, pela iniciativa e em face da manifestação de, pelo menos, uma liderança espírita, no caso o professor e jurista Marcelo Henrique Pereira, Assessor Administrativo da ABRADE – Associação Brasileira de Divulgadores Espíritas – pareceu-nos importante fazer o presente registro. Em sua manifestação, destaca, com propriedade Marcelo Henrique: “Ao contrário do que alguns possam pensar, os temas que estão na ordem do dia são fundamentais e imprescindíveis quanto à mobilização e a participação dos espíritas, construindo uma sociedade melhor, materialmente falando, além, é claro, dos componentes de caráter espiritual propriamente ditos”. Com esse argumento, promete colocar à apreciação de seus companheiros da ABRADE, “a aproximação e o envolvimento da entidade nessa feliz iniciativa”.
Há alguns momentos na história de uma nação que, mesmo sendo eminentemente políticos, provocam demandas que extrapolam ou até contrariam interesses radicais de seus organismos políticos. Esses organismos, aliás, por injunções da própria democracia, tendem a criar estruturas de poder distanciadas do interesse público e cujo distorcido objetivo central passa a ser a criação de privilégios a seus integrantes. É nesses momentos que entidades verdadeiramente livres e voltadas ao bem comum devem agir politicamente. Os organismos espíritas, segundo abalizadas conclusões, teriam se omitido em momentos de graves violações aos direitos fundamentais e à democracia deste país. Diferentemente, a maçonaria e importantes segmentos progressistas da Igreja, apenas para citar duas vertentes, levantaram a voz e agiram concretamente contra a opressão, o autoritarismo e a ditadura, em momentos oportunos.
Este é um momento oportuno. Não para responsabilizar apenas um homem, por mais que esteja ele vinculado às práticas corporativistas contra as quais a sociedade verbera, em uníssono. Mas, fundamentalmente, para contribuir com o aprimoramento institucional, punindo-se, sim, eventuais culpados, e, especialmente, criando-se mecanismos políticos mais funcionalmente sujeitos ao controle social, à transparência e à ética pública.
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Opinião em Tópicos
Milton Medran Moreira
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A divergência dos gênios
Os gênios também divergem. Discípulos dissentem de seus mestres. Aconteceu entre Platão e Aristóteles com suas respectivas teorias do conhecimento. Platão defendia a tese das ideias inatas. Para ele, a alma, e só ela, era detentora do conhecimento. Seu mais famoso discípulo discordou. Aristóteles cunhou a frase que aprendi nos velhos tempos de latim: “Nihil est in intelelectu quod non prius fuerit in sensu” (nada está no intelecto que não tenha primeiro passado pelos sentidos). Ou seja: é pela visão, pelo tato, pelos sentidos corporais, enfim, que adquirimos o conhecimento. Sem experienciar nada aprendemos. Diferente de seu mestre para quem “aprender é recordar”, ou seja, é acessar o imenso universo das ideias que deixamos lá fora da caverna, onde estamos acorrentados e permaneceremos enquanto nossa alma não se libertar do corpo.

O pintor cego
Estou recorrendo aos dois gênios da Grécia Antiga para tentar desvendar um mistério de nossos dias. Na Turquia, não muito distante, pois, da pátria onde se deu esse embate intelectual, um homem chamado Esref Armagan encanta e confunde o mundo. Encanta porque pinta maravilhosamente bem. Uma pintura leve, cheia de cores, de gramados muito verdes, de casinhas multicoloridas com vasos de flores nas janelas e passarinhos pousando nelas. Confunde porque esse homem nasceu cego. Nunca enxergou. Sua relação com tudo o que o rodeia dá-se preferentemente pelo tato. Para pintar seus quadros toca nas flores, nas plantas, nas pessoas e, depois, reproduze-as com os acréscimos que sua alma de artista é capaz de criar.

A alma na pós-modernidade
De sua alma, eu falei? Bem, aí é que a coisa pega. O mundo pós-moderno está muito mais para aristotélico do que platônico. A alma dos filósofos idealistas, que foram tantos e tão ricos, da antiguidade à modernidade, já não conta para a ciência dos neurônios e dos bits que, juntos, pretendem explicar todas as maravilhas dos homens e das máquinas. A neurociência localiza no cérebro a sede e a causa de cada emoção, de cada gesto e comportamento, do bem e do mal. E nessa ditadura neuronial não sobra lugar para a alma. Esta, antes liberta no vasto mundo das ideias, agora é propriedade exclusiva das religiões. Prisioneira do dogma, foi encerrada no quarto escuro do mistério.
Platão não teria dúvida. O pintor que nasceu sem os olhos nem sempre teria sido cego. Sua alma, viajora do tempo, antes de aprisionar-se ao corpo, percebera e retivera as imagens que hoje pinta. Para os neurocientistas, no entanto, há um campo no cérebro onde se formam as imagens captadas pela visão. Quem não enxerga, como Esref, pode suprir isso com os outros sentidos, especialmente o tato, formando, naquela mesma área cerebral, as imagens que consegue reproduzir com seu pincel.

A síntese
Só não consigo entender como Esref, sem ver, pinta o gramado de verde, as flores com suas cores originais, os telhados vermelhos com a neve branca. Ou melhor, consigo, sim. Para isso, preciso harmonizar as relações Platão/Aristóteles: sim, é a alma que conhece, como disse um; sim, o conhecimento chega pelas percepções sensoriais, como afirmou outro. A síntese dessas duas afirmativas à primeira vista antagônicas, se dá pela lei das vidas sucessivas e pelas reminiscências que delas guarda a alma ou espírito. Uma lei em tudo racional, capaz de interpretar o fenômeno Esref. Mas para aceitá-la será preciso enfrentar dois dogmas da pós-modernidade: o de que a alma não existe, e o de que se, vá lá, possa existir, é coisa que deve ser aprisionada no quarto escuro do mistério e da fé.
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Notícias

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CCEPA na campanha contra as drogas
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Com o tema “Reflexão sobre a Prevenção ao Uso de Drogas”, palestra proferida pela psicóloga Mariana Canellas Benchaya, na noite de 3 de agosto, o Centro Cultural Espírita de Porto Alegre aderiu às campanhas que se desenvolvem no Estado contra o uso de drogas. O cartaz que divulgava a palestra mensal, sempre realizada na primeira segunda-feira do mês, às 20h30, tomou como chamada o bordão que vem sendo utilizado pela Rede Brasil Sul de Comunicação “Crack nem pensar”.
Em sua palestra, a psicóloga convidada, espírita, integrante do CCEPA, fez abordagens envolvendo aspectos psicológicos, espirituais e pedagógicos do tema. Estiveram presentes cerca de 100 pessoas. Antecedendo a palestra, na noite de 28 de julho, Mariana foi entrevista pelo comunicador Bibo Nunes, na TV Ulbra, sobre o tema que desenvolveria.
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“Conhecer para Transformar”
Palestra de Medran em Pelotas
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Milton Medran Moreira, Diretor de Comunicação Social do Centro Cultural Espírita de Porto Alegre, proferirá palestra pública, na cidade de Pelotas/RS, na tarde de 29 de agosto, na Sociedade de Estudos Espíritas Vida. O trabalho, que acontece a partir das 15h, propõe uma abordagem espírita do conhecimento e suas implicações ético-morais, com interlocução com os dirigentes, colaboradores e freqüentadores da instituição.
A Sociedade Vida está situada na Rua Santa Cruz, 601, Pelotas, e o evento, como de praxe na instituição, é gratuito. Haverá, entretanto, um posto de arrecadação de leite longa vida para distribuição a famílias carentes.
A colaboração é espontânea.
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Enfoque
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Se o Estado não fosse laico, será que os
Centros Espíritas estariam abertos?

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Luiz Antônio Sá
Professor de filosofia, fundador e coordenador da
LEPPLE - Liga de Estudos Progressivos e Práticas à Luz do Espiritismo e delegado da CEPA - Confederação Espírita Pan-Americana
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Depois de uma exposição sobre problemas sociais que promovemos em um centro espírita, ao final tivemos uma breve parte de interação com o público ali presente, que pode tecer comentários e fazer perguntas. Nessa ocasião uma participação me chamou particular atenção. Foi uma colocação feita por um presidente de centro espírita, que disse o seguinte: “Na sociedade há muitos problemas porque o governo não incentiva as religiões. Infelizmente o Estado é laico.” Ao que, posteriormente, respondemos, e o fizemos, inicialmente indagando: “Se o Estado não fosse laico, será que os centros espíritas estariam abertos?”
Na condição de espíritas que somos, proclamadores de uma fé raciocinada, já não podemos nos permitir determinados enganos, como o de confundir laicismo com ateísmo, ou achar que ser laico é ser inimigo das religiões.
A condição de Estado laico diz respeito tão somente a uma forma de governo que não possui uma religião como sendo oficial, ou seja, é onde o Estado não toma partido religioso, o que não quer dizer propriamente que esse Estado seja inimigo das crenças religiosas. Como exemplo disso temos o Brasil, que é um Estado laico, mas garante aos cidadãos em sua Constituição a liberdade de crença.
Para continuar refletindo sobre esse assunto, é bom também voltarmos um pouco no tempo e olhar a história das religiões. No Brasil, em um passado ainda bem recente, no século XIX, quando a primeira Constituição brasileira ainda oficializava o catolicismo como a religião do Estado, dificilmente se conseguia registrar a existência de um grupo ou templo de outra denominação religiosa. Para se ter uma ideia, o primeiro núcleo espírita do Brasil, o Grupo Familiar de Espiritismo, fundado em 1865, em Salvador - BA, pelo Sr. Luís Olímpio Teles de Menezes, no ano de 1871 teve seu pedido de registro como sociedade religiosa negado, registrando-se posteriormente como uma sociedade científica, o que especificamente para a doutrina espírita não foi ruim, uma vez que esta forma de registro foi perfeitamente concordante com a “autêntica” definição de espiritismo estabelecida por Allan Kardec. Este, claramente, o define como sendo uma “ciência e uma filosofia espiritualista de consequências morais”.
Mas e os outros grupos? Os protestantes, judeus, mulçumanos, budistas, hinduístas, pessoas adeptas aos cultos indígenas, cultos africanos etc.. Será que nesse período algum grupo assim poderia se registrar como uma entidade religiosa e poderiam eles se expressar abertamente em suas ideias e crenças? Evidentemente que não!
Recuando mais no passado a história traz marcas ainda mais perversas de constrangimento, de intolerância e violência sobre aqueles que se declaravam seguidores de outras religiões, ou mesmo sobre aqueles que não seguiam a nenhuma religião, que é outro direito que foi e continua sendo muitas vezes negado e mal interpretado.
Diante do exposto lançamos as perguntas: se o Estado não fosse laico, será que os centros espíritas estariam abertos? Ou ainda, se o Estado fosse teocrático, ou seja, tivesse uma determinação religiosa outra qualquer, mas permitisse a existência de outras crenças, será que desfrutaríamos da mesma liberdade que temos hoje, de abrir as portas das casas espíritas para o público, de declararmo-nos espírita, de registrarmos instituições, de promovermos eventos, de divulgarmos, enfim, o espiritismo através das diferentes mídias? Eu particularmente acredito que não!
Se o Estado fosse teocrático, muitas coisas seriam tolhidas, não só no universo religioso, mas também no campo da filosofia, das ciências e das artes. E não me venham dizer que um Estado teocrático seria capaz de tolher somente as coisas ruins, pois o passado e o presente deixam clara essa incapacidade. Geralmente, o pensamento teocrático caracteriza-se por considerar quase tudo que existe ruim, escapando pouca coisa a esse julgamento. Logo, muitas coisas efetivamente boas e essenciais para o progresso da humanidade deixariam de existir.
Portanto, não nos iludamos, colocando em dúvida aquilo que a duras penas já foi conquistado. Para não ficarmos sujeitos a cair em terrível retrocesso.
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Opinião do Leitor

Vegetarianismo

Oportuna a matéria sobre vegetarianismo (Opinião, junho). Nos próximos 100 anos pessoas razoavelmente informadas não mais comerão carne. Os espíritas bem que poderiam se antecipar. Edy S.Roland – São Paulo/SP.

O que é o Espiritismo
Com a reportagem “Kardec e os Princípios Fundamentais”, recordando os 150 anos do livro “O que é o Espiritismo” (julho/09) vocês deixam muito claro que Kardec não desejava mesmo que o espiritismo fosse uma religião. Os padres, combatendo-o, é que fizeram dele uma nova crença. Para mim, espiritismo é essencialmente uma filosofia.
Laurindo F.de Giuliani – Teresópolis/RJ

quinta-feira, 9 de julho de 2009

OPINIÃO ANO XV - N° 165 - JULHO DE 2009

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Kardec e os Princípios Fundamentais
Há 150 anos, Allan Kardec lançava “O Que é o Espiritismo”. Seu
objetivo: combater as “ideias falsas”, concebidas “a priori” por
aqueles que não conheciam os “princípios fundamentais da Ciência”
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O lançamento
Na “Revista Espírita” de julho de 1859, seu diretor, Allan Kardec, noticiava o lançamento de “O Que é o Espiritismo”. Apresentava-o como “um resumo que permitirá, numa leitura rápida, apreender o conjunto dos princípios fundamentais da Ciência”. Justificando tratar-se, efetivamente, da exposição dos fundamentos de uma proposta científica, alheia a qualquer tipo de revelação religiosa, sublinhava seu autor, no anúncio de lançamento: “Aqueles que, depois dessa curta exposição, julgarem o assunto digno de sua atenção, poderão aprofundar-se com conhecimento de causa”.
Dois anos haviam se passado da edição inaugural de “O Livro dos Espíritos”, obra fundamental da doutrina espírita (abril de 1857). Kardec, como editor da “Revista Espírita”, recebia dos mais diversos quadrantes do mundo cartas questionando-o sobre temas espíritas. Seu objetivo com aquela nova obra era, como ali consignava, “apresentar, num quadro a resposta a algumas perguntas fundamentais, que nos são dirigidas diariamente”. Assim, dizia, a obra contribuiria para que fossem afastadas aquelas “ideias falsas que adquirimos a priori sobre aquilo que não conhecemos”. Terminava Kardec a matéria pedindo “o concurso de todos os amigos dessa ciência, auxiliando a divulgação desse curto resumo”.

A preocupação com a identidade espírita
O opúsculo então lançado se caracterizaria justamente por fixar com clareza a verdadeira identidade do espiritismo. Já na introdução, define-o sucintamente como “uma ciência que trata da natureza, da origem e do destino dos espíritos e de suas relações com o mundo material”. Mas, para chegar à definição, em breve preâmbulo, esclarece que, sendo “uma ciência de observação”, o espiritismo é, ao mesmo tempo, uma “doutrina filosófica”, aduzindo: “Como ciência prática, consiste nas relações que se podem estabelecer com os Espíritos; como filosofia, compreende todas as consequências morais que decorrem dessas relações”.
Todo o pequeno livro, lançado há exatos 150 anos, utilizando-se especialmente de diálogos – o primeiro deles com o “crítico”, o segundo com o “visitante” e o terceiro com o “padre - envolve conceitos precisos, embasados em fatos e na razão. Dos fatos e da razão Kardec extrai, com maestria e didática, consequências morais, identificando estas com o próprio ensino moral de Jesus, mas recusando, expressamente, fazer dessa doutrina uma nova religião
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Nossa Opinião

A paixão não raciocina
Se quiséssemos resumir em poucas palavras o objetivo e o conteúdo de “O Que é o Espiritismo”, lançado há 150 anos, poderíamos dizer simplesmente que ali Kardec quis deixar claras duas ideias fundamentais:
1ª – A de que o espiritismo é uma ciência que tem por objeto o estudo do espírito, sua natureza imortal, sua comunicabilidade e sua evolução infinita;
2ª – Que o conhecimento dessa ciência conduz o ser humano a uma nova postura ética individual e coletiva (filosofia moral).
Salientando a importância dessas duas ideias, Kardec diz ao padre, no diálogo ali inserido: “O Espiritismo não era mais que simples doutrina filosófica”, mas, “a própria Igreja o desenvolveu, apresentando-o como um temível inimigo”. E finaliza: “Foi ela (a Igreja), enfim, que o proclamou como nova religião. Uma demonstração de inépcia, pois a paixão não raciocina”.
Mostrava Kardec, com meridiana clareza, que não concebera o espiritismo para ser uma nova religião e que essa classificação o desagradava Sua estrutura de ciência experimental com consequências filosófico-morais não comportava questões de fé e muito menos paixões suscitadas pelas disputas religiosas.
Mas, como diria, pouco depois, Léon Dénis, discípulo de Kardec, o espiritismo seria o que dele fizessem os homens. E os homens, levados pela Igreja, dele fizeram uma religião a mais.
Uma coisa é identificar essa realidade fática. Condição, aliás, indispensável para modificá-la. Outra, bem diferente, é conformar-se com ela. Nós estamos entre aqueles que não se conformam. (A Redação)

Editorial
Um momento singular
“...é preciso que a moralidade vença numericamente”
(Allan Kardec, “As Aristocracias”, em “Obras Póstumas”)

O Brasil vem assistindo a uma torrente de escândalos que acontecem em sua mais alta Casa Legislativa. O Senado Federal, instituição que, no ideal republicano, deveria abrigar homens probos, experientes, voltados à defesa das prerrogativas dos Estados que os elegeram, tem se mostrado um dispensador de privilégios inconfessáveis. Por meio de uma excrescência jurídica, os “atos secretos”, nomearam-se cargos em comissão, concederam-se vantagens, pagaram-se mordomias, remuneraram-se prestadores de serviços particulares com verbas públicas, desbaratam-se, enfim, milhões de reais dos cofres públicos.

Nossa incipiente democracia tem sido, frequentemente, violada por escândalos dessa ordem. Seria ingênuo supor seja isso novidade. Quanto mais recuarmos no tempo, mais identificaremos a presença de sanguessugas do erário público. Por milênios, os mais fortes e os mais hábeis, ora valendo-se da força bruta, ora invocando pretensos direitos divinos, ou de sangue, ou de raça, ou de corporação, assenhorearam-se dos bens comuns e espezinharam os direitos inerentes a todos.

O postulado de que “todo o poder emana do povo e em seu nome será exercido” é uma conquista recente da sociedade que está longe de ser inteiramente praticada. É verdade, já somos capazes de exercitar com plenitude a cidadania na hora de eleger nossos representantes. Mas estamos distantes de poder fiscalizá-los convenientemente e nos sentimos impotentes de lhes evitar os desmandos.

O momento é singular. A plena democracia permitiu-nos fortalecer os organismos políticos. Com os poderes que lhe concedemos, a classe política criou uma formidável estrutura corporativista. Disso decorre que os honestos e bem-intencionados que lá chegam deparam-se com um forte mecanismo protecionista que nem sempre lhes possibilita agir em favor da moralização.
Em contrapartida, talvez nunca como hoje, a sociedade civil esteve tão mobilizada. Nunca a imprensa apontou tão cruamente as mazelas do poder político. Também, inegavelmente, acentua-se o senso ético na consciência do povo. Está começando uma revolução em prol da transparência, da moralidade e da punibilidade dos malversadores do interesse público. O povo se sente traído e compreende que as raízes dessa traição se nutrem no lodaçal de uma imoralidade cultivada e tolerada por muito tempo e que precisa ser contida.

Entretanto, toda a corrupção pública, mesmo a que se institucionaliza e assume ares de legalidade, é gestada na consciência do ser humano. Vale dizer, produze-a o espírito imperfeito, aquele que, segundo os mensageiros da espiritualidade, é ainda dominado pelo orgulho e o egoísmo. Mais do que nunca, a quem, como nós, foi possível a compreensão das leis da vida fundadas na imortalidade e na evolução do espírito cabe investir no processo de educação integral do ser humano.

Resgatar a essencialidade espiritual do homem implica também em demonstrar que há um único caminho para a felicidade, em qualquer plano e estágio: o do esforço pela transformação ética e moral. Não se atingem patamares de justiça, estabilidade política e social, correta administração da coisa pública, sem que esses valores se encontrem ancorados na consciência moral de cada cidadão: de eleitores e eleitos, de governantes e governados.

Convém, enfim, ter presente sempre que o bem e o mal são escolhas do ser humano. Que valores públicos gestados pelos ideais republicanos exigem de cada indivíduo um assentimento e uma participação que não se esgotam no voto e reclamam a ação concreta em favor do bem comum. Viver é, sobretudo, conviver, aprendendo a fazer da convivência um ideário de justiça, solidariedade e fraternidade. Seja qual for nossa posição no contexto social.

Toda a corrupção pública, mesmo a que se institucionaliza e assume ares de legalidade, é gestada na consciência do ser humano.

Opinião em Tópicos
Milton R. Medran Moreira

O Pequeno Buda
No filme “O Pequeno Buda”, com Keanu Reeves, um menino americano conhece um grupo de monges tibetanos que asseguram ser ele a reencarnação de um mestre budista. Sob a incredibilidade inicial, pais e filho partem rumo ao país asiático onde se deparam com crenças e formas de vida muito distintas das suas e da própria maneira de vida do Ocidente.
Monges budistas costumam percorrer o mundo atrás de sinais que caracterizariam a reencarnação de mestres do passado. Essas crianças por eles identificadas como tulkus (mestres reencarnados), depois de convencidos e doutrinados seus pais, terminam sendo afastadas da família para se submeterem a uma rigorosa vida monástica. Tudo sob a crença de que são seres predestinados que, já na encarnação anterior, teriam dado sinais a respeito de onde haveriam de reencarnar para, dali, serem levados a mosteiros nos quais irão se preparar para uma nova missão búdica.

Um Buda brasileiro
Inclusive no Brasil já surgiu um desses pequenos budas: Michel Lenz Calmanovitz, hoje conhecido como o lama Michel Rimpoche. Desde os 12 anos, esse paulista, nascido em 1981 de pai judeu e mãe presbiteriana, vive num monastério no Sul da Índia. Ainda muito pequeno, contrariando as tradições religiosas de seus genitores, começou a falar em coisas como a busca da iluminação, a roda das reencarnações, a supressão de desejos e paixões, e não descansou enquanto não viajou à Índia e ao Nepal com seus pais. Lá terminou sendo reconhecido como reencarnação de um grande mestre tibetano, pediu para envergar paramentos de lama e, em 1994, terminou por se internar num mosteiro, onde vive sob um rígido regime de estudos, orações e trabalho.

O Buda rebelde
Mas, nem sempre as coisas acontecem sob esse mesmo figurino. A edição nº 2117 da revista Veja publicou reportagem contando a história do espanhol Osel Hita Torres que, na década de 70, aos 4 anos, foi reconhecido como um tulku. Seus pais eram budistas e receberam a notícia como um presente dos céus. Permitiram que o garoto fosse levado a um mosteiro no Norte da Índia, onde foi criado com a dureza exigível de um legítimo Buda. Só que Torres não aguentou. E, aos 18 anos, época em que desejos e paixões, normalmente, falam mais alto que a busca da iluminação, terminou deixando o monastério. Hoje, com 24, circula por Hollywood, onde fez faculdade de cinema e já atuou como assistente de produção de um filme. Dias atrás, entrevistado, o “ex-Pequeno Buda” se queixou da violência que teria sofrido na sua infância, ao ser retirado da companhia dos pais para ser internado no monastério. Diz não ter saudade alguma dos tempos em que foi mantido afastado do mundo, rezando e estudando filosofia budista.

A proposta espírita
Teriam os monges que identificaram Torres como um Buda errado o diagnóstico? Ou será que alguém que, numa encarnação, conquista essa chamada “iluminação búdica” não terá, mesmo, mais direito a ter desejos, a ser simplesmente humano? E como tal, viver a vida de um novo jeito, conviver com a cultura e a família na qual reencarna, adaptar-se ao mundo que o rodeia, trabalhar no que gosta e encontrar outras formas de realização pessoal?

É comum entre nós conferir a esses modelos espiritualistas de outros quadrantes uma certa aura de superioridade. E, no entanto, a filosofia espírita, como proposta afinada com o mundo moderno, condena o ascetismo, estimula e valoriza os laços de família e vê o mundo, com seus desafios e contradições, como cenário ideal para o progresso do espírito na convivência com o diferente e na plena vivência do pluralismo. Na verdade, o espiritismo é uma revolucionária proposta de dessacralização e desmitificação do mundo, sob a ótica da imortalidade e da reencarnação, vistas como leis naturais.
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Notícias
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CCEPA e CVV VALORIZANDO A VIDA
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Mantendo a tradição, o Centro Cultural Espírita de Porto Alegre recebe mais uma vez o Centro de Valorização da Vida, Posto de Porto Alegre, para a realização em suas instalações da 9ª SEMANA DE VALORIZAÇÃO DA VIDA – 28/31 de julho 2009.

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Programação, aberta ao público:

Dia 28 de julho- Terça- feira
20 horas: Palestra: CVV- Uma Proposta de Vida
Palestrante: Coordenação do Posto

Dia 29 de julho- Quarta-feira
20 horas: Palestra: Saúde e Espiritualidade
Palestrante: José Camargo, Cirurgião Torácico, Diretor Médico do Hospital Dom Vicente Scherer, Chefe do Serviço de Transplante Pulmonar da Santa Casa
(FOTO JOSÉ CAMARGO)
Dia 30 de julho- Quinta-feira
20horas: Palestra: Psicopatia no mundo atual
Palestrante: Camila Chaves, Médica Psiquiatra do Serviço de Psiquiatria do Hospital de Clínicas-POA

Dia 31 de julho- Sexta-feira
20 horas: Palestra: A Nova Ciência e a Fé Valorizando a Vida
Palestrante: Moacir Costa de Araújo Lima, Professor, Advogado e Escritor

21h e 30 min -.Encerramento - Confraternização: 39 anos do Posto- CVV- POA.

Donarson foi o conferencista de julho
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Com o tema “O Espiritismo e os Pobres”, Donarson Floriano Machado, ex-presidente do CCEPA, foi o conferencista do mês, na primeira segunda-feira de julho.
Prosseguindo a série de conferências oferecidas ao público pelo Centro Cultural Espírita de Porto Alegre, na segunda-feira, 3 de agosto, às 20h, a psicóloga Mariana Canellas Benchaya abordará o tema “Refexão sobre a prevenção ao uso de drogas”.
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Café Cultural do CCEPA com sabor e arte
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O II Café Cultural do CCEPA, realizado no sábado, 27 de junho, na sede da instituição em Porto Alegre, reuniu cerca de uma centena de pessoas em torno de uma saborosa mesa de café, seguido de momentos de arte e lazer.
Na parte musical, o Coral Vila Assunção, sob a regência do maestro Vicente Casanova, brindou o público com canções eruditas e populares de seu repertório. Depois de uma descontraída declamação de um poema de humor por Milton Bittencourt e Walmir Schinoff, vários integrantes do grupo do Coral fizeram apresentações musicais individuais.
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Afirmação espírita
José Rodrigues*

Discussões e apreensões sobre o substantivo “espiritismo” e o adjetivo “espírita” têm nos desafiado. É salutar que isso aconteça, como fruto do caráter libertário do espiritismo, em nome do qual há ampla diversidade de entendimento e práticas, por paradoxal, após os avanços conceituais sobre o velho espiritualismo, o mesmerismo, o magnetismo, com diversas denominações, até o novo-espiritualismo. Allan Kardec conseguiu, por um método próprio, construir um conjunto de saberes a que deu o nome de espiritismo e o de espírita, aos seus seguidores.
Essa trademark inscrita por Allan Kardec no mercado de ideias e do conhecimento balizou o nascimento de nova abordagem de um mundo, antes especulativo, impreciso e, não raro, manipulado, para outro, dimensionado, comprovado e sujeito ao método investigativo. No limite da argumentação, trata-se de uma propriedade intelectual da pessoa física nascida Hippollyte Leon, o professor Rivail.
Dentre esses fatos, hoje, pela cor branca de meus cabelos, ofereço aos companheiros, um pouco de história, pois desde os anos de minha juventude dediquei parte substancial de meu tempo à causa espírita, em momentos bem diversos do atual.

Já naquele tempo, pouco depois da metade do século passado, quando era generalizado o conceito de religião, fazíamos série de exceções para “a religião espírita”, que não continha isto e aquilo, para diferençar das demais. Um esforço hercúleo. Era um núcleo coeso, trabalhador e idealista. Nas semanas espíritas, para a sua divulgação, preparavam-se faixas para colocar nos postes e entre árvores da cidade; afixavam-se cartazes, com cola que nós mesmos preparávamos cozinhando farinha de trigo. Escrevíamos notícias para jornais e por ocasião das palestras, vendíamos livros. Acolhíamos oradores em nossas casas, para baratear os custos. Só gente religiosa era capaz disso.

Dentre nossas inconformações, havia, à época, um episódio marcante: a Festa de Iemanjá, promovida pela União Espírita Santista, cuja líder ocupava uma cadeira na câmara municipal. Batemos de frente, várias vezes contra os umbandistas, sob o pretexto de usarem indevidamente o nome espírita. Pagamos matéria em jornal de circulação regional para definir posições e certa vez, em pleno programa de rádio daquele grupo, telefonei à emissora “denunciando” o que seria uma apropriação indébita.

Nos anos 1970 a 1990, realizei, por motivos profissionais, várias viagens a Londres, onde colhi material dos espiritualistas de lá, conheci as “churches” e os ‘mediuns’ britânicos que lidavam com o objeto espírita, a maioria com consultas pré-marcadas e mediante cobrança. Fiz entrevista com um dos líderes intelectuais da época, Maurice Barbanell, editor do Psychic News, publicada no “Espiritismo e Unificação”, então editado pela União Municipal Espírita de Santos. O destaque: a reencarnação era posta em dúvida pelo “espiritismo” inglês. Mostra que o inconformismo de hoje já extrapolava o plano nacional e de longa data.

Em um lance contemporâneo lançam-se no mesmo mercado os termos kardecismo e kardecista, propostos substitutos de espiritismo e espírita. Até então, esses termos poderiam vir como ênfase a uma ideia, encontráveis na literatura do ramo, mas agora se trata mesmo de troca. Espíritas há desconfortáveis ou mesmo envergonhados com o substantivo e o adjetivo criados por Allan Kardec, ante um sem número de distorções, sob esses suportes.

Em tempos recentes, ainda que a conexão espiritismo/religião não seja fácil de ser desfeita, pelos próprios fundamentos post-mortem do estatuto espírita, vive-se, hoje,
o melhor tempo do trato desse conhecimento, particularmente no Brasil, com irradiação para outros países, sob o generalizado conceito de espiritismo laico.
Não dá para enterrar a história e deixar de reconhecer que há importantes etapas vencidas, com diferenciações mais claras em torno do mesmo foco. A liberdade de expressão, ganhos de independência e descomprometimentos com o passado, evidenciam campos distintos entre conservadores e progressistas.

O ‘renascimento’ da CEPA, seguido da criação, por este imenso Brasil, de novas instituições direcionadas ao estudo e à pesquisa espírita, são fatos históricos, altamente positivos, ante poucas décadas atrás. Uma nova literatura, produzida pelos encarnados, afirma posições, em linguagem livre, com aproveitamento dos princípios do espiritismo. São minoria? Sim, mas quais mudanças houve no mundo que não partiram de minorias?
Novas gerações já encontram uma bandeira de pé, a de um espiritismo aberto, contraposto ao igrejismo, ao misticismo e ao sectarismo, desfrutando dos bônus do laicismo, como deve ser uma filosofia de bases científicas.

Um terceiro argumento em prol do novo estágio da ideia espírita é dado pela mídia em geral, com crescente abordagem de temas correlatos, algo que foi censurado, boicotado e proibido, em tempos idos.
Com essa plataforma, analiso o termo espírita, que significa a aceitação do espírito, de sua origem aos seus ilimitados fins. Nada há mais universal que o termo espírito e, por derivações, espiritismo e espírita. Sob uma visão de mercado, tem tudo para fácil aceitação, é um achado genial. O espírito “sopra onde quer”, é real em qualquer quadrante do mundo, como parte da natureza. Na sua essência, partidariamente apolítico, tanto pode renascer em um país democrático, quanto ditatorial; não tem carimbo nacional e tampouco precisa de visto de entrada. O espírito é, e o nome da filosofia científica que trata de sua natureza e relações com o chamado plano físico chama-se espiritismo.

O mestre de Lyon, com toda sua grandeza e sabedoria, abriu mão de substantivar-se para a história, preferindo aceitar as sugestões dos espíritos, a fim de nominar a estrutura nascente.
Detenhamo-nos, além disso, na importância do tempo. As ciências reconhecidas de hoje, várias anteriormente mescladas com outras, levaram séculos para obtenção de seus espaços próprios. Astronomia, física, química, precisaram ultrapassar estágios de crendices, experimentos arriscados, do empirismo, de teorias de curta duração, para obterem reconhecimento da academia. No campo essencialmente teórico, a filosofia, de uma elite de pensadores, engravidada por inúmeras divisões, chegou à praça pública, a ágora, para se tornar, depois, disciplina curricular desde o nível médio escolar. Assim também com a cidadania.

Sob os pontos de vista de civilização e cultura, entendo que temos muito chão a percorrer. Talvez a nossa condição de país emergente, pelo critério econômico,
reflita uma natureza ávida por mudanças, no campo das ideias. Mas, se testarmos o conhecimento do espiritismo, como o concebemos, em relação a culturas, como a européia e a asiática, que antes da chegada de Cabral já eram consideradas antigas, temos resultados pífios.
Sobre este ponto tenho um fato curioso. Refere-se a uma conversa que mantive com jornalista francês, em Londres. Cobríamos um mesmo evento, ele como correspondente de uma agência internacional de notícias. Num intervalo entre as entrevistas perguntei-lhe se, como francês, conhecia ou ouvira falar no nome Allan Kardec. Para meu espanto e até desaponto, respondeu-me que não. Ainda citei o nome do professor Rivail, com o mesmo resultado negativo. E se tratava de um jornalista. Mais recentemente, no Brasil, outro fato chamou-me a atenção, pelo vínculo com propostas de mudanças. Um atleta do Santos Futebol Clube, Adailton, foi objeto de entrevista. Em dezembro de 2008 o site do clube, reproduzido na imprensa, deu breve história do atleta, que nascera com um problema de saúde e fora curado em um centro espírita de Salvador (BA). Parte do texto, sob o título: “Espiritualismo move a fé de Adailton”, dizia: “Desde que obtive essa cura, pratico o kardecismo. Com o passar do tempo, me aprofundei na espiritualidade e fui aprendendo coisas novas. A partir do momento que conheci a umbanda, intensifiquei o estudo dessa religião e me apaixonei. Tenho certeza que tudo provem do divino, inclusive todas as religiões”. Nas fotos que ilustravam a matéria havia capas do “Evangelho segundo o Espiritismo”, do romance “Paulo e Estevão” e do “Código de Umbanda”, de Rubens Saraceni. Observei que o termo kardecismo ganhava em cidadania, mas não-passível de ser deturpado por um senso que poderá ser comum. Nesse ritmo não será surpresa se entidades deste imenso país venham a denominar-se “centro kardecista de umbanda”. Sem donos, chefias ou controles centralizados, como convém a uma filosofia, essas criações têm campo livre para se manifestar, o que não se circunscreve à umbanda.

A contraposição a esse quadro está no desenvolvimento de um espiritismo afirmativo, em ilimitados campos do conhecimento, nos quais a imortalidade e seus contornos entram como diferenciador. Teses acadêmicas recentes estão nesse caminho, ainda que com menor ênfase para o flanco científico. A fase do que “não é” deve ser substituída pela do que “é”, peso que se tira das costas para uma caminhada positiva em direção ao futuro.
Entendo que a denominação espírita kardecista, seria a mais abrangente. O kardecista reafirma uma escola, é mais rígido e definidor do seu conteúdo, mas eis que se institui uma variedade de espiritismo. E aí se colide com a trademark do fundador. Agregue-se outro fator de importância histórica. Continuadores de Kardec, antigos e contemporâneos, os Léon Denis, Delanne, Bozzano, junto a pensadores e idealistas, como Porteiro, Herculano Pires, Deolindo Amorim, que somaram nos termos espírita e espiritismo, estariam com seus fundamentos comprometidos? A partir de qual momento, e com que autoridade, se substituiriam as denominações de origem, por novas?
São algumas contribuições que julgo de interesse a esse debate. Bom é que sigamos com a liberdade de propor nomes, conceitos e métodos, lançando-os no mercado do tempo.

Kardecismo substituindo espiritismo? O mestre de Lyon, com toda sua grandeza e sabedoria, abriu mão de substantivar-se para a história, preferindo aceitar as sugestões dos espíritos, a fim de nominar a estrutura nascente.

*José Rodrigues, economista e jornalista. Coeditor do site Pense-Pensamento Social Espírita (
www.viasantos.com/pense). Preside a Ação de Recuperação Social – ARS e integra o Centro Espírita Allan Kardec, de Santos/SP.
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Opinião do Leitor

Vegetarianismo
Oportuna a matéria sobre vegetarianismo (Opinião, junho). Nos próximos 100 anos pessoas razoavelmente informadas não mais comerão carne. Os espíritas bem que poderiam se antecipar.
Edy S.Roland – São Paulo/SP.

quinta-feira, 11 de junho de 2009

OPINIÃO ANO XV - Nº 164 – JUNHO 2009

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O VEGETARIANISMO EM DEBATE
A carne no banco dos réus
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Participantes da Lista da CEPA na Internet discutem a questão do vegetarianismo sob a perspectiva espírita, a partir de texto do comunicador Ivan René Franzolin.
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O texto de Franzolin
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Um artigo do comunicador espírita Ivan René Franzolin postado na lista de discussão da CEPA pelo debatedor Paulo Cesar (DF) e que pode ser lido em sua íntegra no blog http://blog-espiritismo.blogspot.com/2009/05/e-o-vegetarianismo.html - provocou, no último mês de maio, interessante debate no grupo. Em seu artigo, originariamente publicado em A Voz do Espírito, Franzolin, que se declara “vegetariano há vários anos”, sustenta: “Embora o Espiritismo não recomende diminuir a matança de animais para nossa alimentação, o conteúdo de seu ensino, baseado no amor e na bondade, deixa evidente que esse será um passo no caminho da nossa evolução”.
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Reportando-se à questão 723 de O Livro dos Espíritos onde Kardec indaga dos espíritos se “a alimentação animal é, com relação ao homem, contrária à lei da Natureza”, lembra o articulista que a primeira frase da resposta foi: “Dada a vossa constituição física, a carne alimenta a carne, do contrário o homem perece”. Mas, questiona Franzolin: “Como teria sido a resposta caso ele tivesse perguntado se o homem deveria se preparar para um dia deixar de comer carne”. Recolhe, então da resposta “que a alimentação carnívora é parte do processo evolutivo e natural do homem”, mas que isso vale apenas “até um instante de sua evolução” e que esta, segundo alguns vegetarianos, já teria sido alcançada “para aqueles mais evangelizados”.
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Segundo o artigo, os conhecimentos da época em que os espíritos deram aquela resposta a Kardec não permitiam incitar o homem a uma mudança de sua alimentação carnívora, sem prejuízo à saúde. Mas que “a situação atual apresenta diferenças muito favoráveis à alimentação vegetariana, aumentando consideravelmente as opções dessa dieta”. Mesmo defendendo a alimentação vegetariana, Franzolin, em seu artigo, destaca: “Independente da análise quanto ao tipo de alimento que ingerimos, se faz necessária a eliminação dos excessos e de qualquer postura que nos coloque próximo da posição de quem vive para comer, ao invés de comer para viver”.
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A alimentação vegetariana ganha cada vez mais adeptos, não por motivos religiosos, mas como opção saudável e porque existem hoje alternativas que suprem os nutrientes encontrados na carne.
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Argumentos contrários e favoráveis no grupo de discussão
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A tese vegetariana, que tradicionalmente encontra defensores e opositores no meio espírita, também na Lista da CEPA motivou argumentos em ambos os sentidos. O debatedor Vital Ferreira (SP) questionou argumento também presente no artigo de que em Nosso Lar, obra psicografada por Chico Xavier, “os habitantes foram compelidos a deixarem o hábito de comer carne”. Pergunta se, com isso, o articulista “está dizendo que os espíritos comem carne”.
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A partir dessa observação, o debatedor Marcus (Salvador/BA) contestou a própria existência de animais na erraticidade, evocando, para tanto, O Livro dos Espíritos. Por sua vez, Sérgio Maurício (Salvador/BA) fez críticas à posição dos vegetarianos que, em seu discurso, “se consideram mais evoluídos”. Para ele é arrogância achar que uma opção alimentar é caminho ou não para evolução espiritual. Diz o debatedor: “Não tenho nada contra ou a favor de opções alimentares, pois penso firmemente que isso não tem absolutamente nenhuma importância no desenvolvimento espiritual”. E acrescenta: “Achar que um animal tem mais vida do que uma planta é, no mínimo, um entendimento bem particular e ideologicamente interessado do conceito de vida”.
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Paulo Cesar (DF) sustentou no debate que a alimentação carnívora gera compromissos cármicos, sob o entendimento de que fazemos os animais sofrerem “e há uma lei de retorno”. Também participante da lista, Israel Agudelo, de Bogotá, Colômbia, saudou a discussão do tema “tão importante para aqueles que vemos os animais como irmãos e não como meio de alimentação”.
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NOSSA OPINIÃO
SEM CULPA
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Costumes alimentares, tanto quanto os de outros aspectos da vida humana, são mutáveis. Se recuarmos no tempo, vamos encontrar o homem primitivo abrigado em grutas de pedra, comendo a carne crua dos animais que saíra a caçar. Nosso organismo, hoje, por certo não suportaria os alimentos que eram, então, por ele ingeridos.

O hábito de comer carne que, diferentemente de nossos antepassados, aprendemos a cozer ao fogo, juntando-lhe condimentos que a transformam em delicadas iguarias, continua, em nosso tempo, sendo uma das principais bases da alimentação humana. Assim mesmo, diversamente do que ocorria no século 19 (época em que os espíritos deram a entender a Kardec que ela era praticamente indispensável à alimentação humana), hoje existem outras opções de cardápio capazes de suprir os nutrientes presentes na carne. Ademais, costumam-se associar, presentemente, ao consumo da carne riscos de doenças como o câncer, distúrbios cardíacos e, inclusive, a redução da expectativa de vida.

Aspectos dessa natureza têm levado, hoje, muitas pessoas a reduzir ou, mesmo, a abandonar o consumo da carne, substituindo-a, no entanto, por outros tipos de nutrientes que a agricultura e a engenharia alimentar modernas põem à disposição do consumidor. Dessa forma, tornar-se vegetariano já não resulta de convicções religiosas ou de escrúpulos espiritualistas, mas aqueles que o fazem são, via de regra, movidos por razões de saúde. Numa visão inspirada na filosofia espírita, que contempla o homem como um ser integral - corpo/mente/perispírito/espírito -, a saúde material tem, também, importantes repercussões espirituais. Essa linha de raciocínio abre espaço a uma visão mais sistêmica da vida, levando em conta aspectos ecológicos e de respeito a todas as formas de vida.

É possível que, num lapso semelhante àquele que nos separa hoje do tempo em que surgiu o espiritismo, o consumo da carne venha a ser drasticamente reduzido ou até abandonado. Convém, entretanto, que as mudanças ocorram sem a intercorrência de condenações, remorsos ou autoflagelos carregados de ameaças, culpas ou medos. A vida flui e se aprimora a partir do avanço do conhecimento acerca de nós próprios e do mundo que nos rodeia. Se os preceitos religiosos, ontem, assumiam formas imperativas a regular nossos hábitos pessoais, os tempos de hoje colocam-nos à disposição conhecimentos e alternativas capazes de permitir que, com liberdade, tracemos projetos de vida úteis ao nosso desenvolvimento físico, psíquico e espiritual: sem culpas e com vistas à nossa felicidade e daqueles que nos rodeiam ou que virão depois de nós. (A Redação)
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Leia ainda nesta edição:
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· A busca da identidade apesar das barreiras. O editorial da pág.2 destaca o esforço da CEPA, instituição da qual é o CCEPA filiado, em promover, através de seus Congressos, a convivência e a busca de uma identidade capaz de unir espíritas de diferentes perfis.
· “Sou humano e nada do que é humano me é estranho” – A frase do ex-bispo Lugo, repetindo Terêncio, é mote para a coluna Opinião em Tópicos de nosso editor Milton Medran Moreira, na pág.3.
· Participe do Café Cultural do CCEPA. Será na tarde de 27 deste mês na sede de nossa instituição. Veja na pág.3.
· Os fundamentos éticos e sociais do espiritismo nunca estiveram tão atuais como agora. Quem afirma é o economista e jornalista espírita José Rodrigues, no artigo Na Teologia do Mercado, nunca há o bastante, uma análise econômica e social a partir da filosofia espírita, em Enfoque da última página
· A CEPA não adotará a Proposta do Modelo Kardecista de Jaci Regis como tema central do Congresso de Santos. Nota oficial do Conselho Executivo da entidade, publicada em América Espírita, encartado nesta edição, explica as razões.
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EDITORIAL
A Busca da Identidade apesar das barreiras
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O mais sólido e mais duradouro traço de união entre os seres é a barreira
(Pierre Reverdy)

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Atualizar o espiritismo e avançar em conceitos não suficientemente contemplados na obra de Allan Kardec é desafio permanente que, ontem, hoje e sempre, tem envolvido os chamados grupos progressistas do movimento espírita. Não se pode, entretanto, perder de vista que o movimento, como um todo, é plural. O pluralismo deriva justamente da heterogeneidade cultural e das diferentes experiências vividas pelas pessoas e instituições que compõem o grande mosaico mundial chamado espiritismo. Serão essas diferenças barreiras intransponíveis? Salvo melhor juízo, não.
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Mais agudamente, nos últimos anos, o movimento espírita vem apresentando com clareza e com perfis muito bem definidos, dois blocos que se autodefinem como religioso um e laico o outro. O Centro Cultural Espírita de Porto Alegre, entidade da qual este jornal é intérprete, de há muito que optou por uma visão laica e livre-pensadora de espiritismo, entendendo ser este o perfil mais fiel às bases propostas, no Século 19, pelo insigne fundador do movimento, Allan Kardec. Por isso, há cerca de 15 anos, decidiu filiar-se à Confederação Espírita Pan-Americana, CEPA, organização que, ao curso de mais de 60 anos de vida, demonstrou vocação livre-pensadora, laica e progressista, sem jamais abandonar o espírito essencial da proposta kardequiana.
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Mesmo sustentando algumas ideias que se chocam com o pronunciado religiosismo e misticismo de grande parte do movimento espírita mundial, a CEPA busca manter com todo o movimento, independentemente das características de cada entidade ou agente, uma relação afetuosa e produtiva, entendendo que, somando esforços, todos podemos contribuir com o avanço dos princípios básicos do espiritismo.
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Especialmente através de seus Congressos, a Confederação Espírita Pan-Americana tem buscado essa interlocução com todo o movimento espírita mundial. A par disso, aqueles eventos guardam o nítido escopo de, acolhendo contribuições plurais, desbravar caminhos que levem à permanente e efetiva atualização doutrinária e, quiçá, a uma mais clara identidade cultural do movimento como um todo. Os Congressos da CEPA são, ao mesmo tempo, expressões cálidas de confraternização e instrumentos de avanço conceitual e doutrinário do espiritismo.
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A nota oficial que a CEPA publica na primeira página do boletim América Espírita, encartado, como de praxe, neste jornal, ratifica essa disposição com vistas ao próximo Congresso da entidade, a ser realizado em Santos/SP, no próximo ano de 2012. Como os vinte anteriores Congressos já celebrados pela instituição, este objetiva ser um evento de congraçamento entre todos os espíritas, e o desenvolvimento de sua temática promete ser, de acordo com a tradição institucional, mais uma contribuição coletivamente construída em prol do aprimoramento doutrinário do espiritismo.
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O Centro Cultural Espírita de Porto Alegre que, com a presença pessoal de cinco de seus associados, assistiu e participou da reunião em que se produziu aquela manifestação, na cidade de Buenos Aires, no último mês de maio, ratifica-a aqui e cumprimenta os dirigentes da CEPA pelo oportuno, firme, fraterno e genuinamente espírita pronunciamento.
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Os Congressos da CEPA são, ao mesmo tempo, expressões cálidas de confraternização e instrumentos de avanço conceitual e doutrinário do espiritismo.
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OPINIÃO EM TÓPICOS
Milton R. Medran Moreira
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Lugo e Terêncio
Lugo não se escondeu. E mais: não escondeu sua condição humana, quando, acossado pelas tantas notícias de paternidade a ele atribuídas no pleno exercício do episcopado, declarou publicamente: “Sou humano e nada do que é humano me é estranho”. Repetiu, assim, embora sem citar a autoria, famosa sentença do dramaturgo e poeta romano Terêncio: “humo sum, humani nil a me alienum puto”.
Nenhum reparo, pois, à atitude do político e administrador Fernando Lugo. Comportou-se como ser humano, detentor de virtudes e defeitos, capaz do cometimento de acertos e erros. E, acima de tudo, uma vez assumidos estes últimos, de repará-los, como já o fez, ao reconhecer a paternidade de uma das crianças cuja mãe trouxera a público a denúncia.

O cidadão, o padre e o bispo
Se não cabem censuras ao cidadão Fernando Lugo, talvez o mesmo não se possa dizer com relação ao padre Lugo, membro, quando dos episódios a ele atribuídos, de uma ordem religiosa que impõe aos seus integrantes, e estes aceitam e professam, votos de pobreza, obediência e castidade. Mais incompreensíveis se tornarão ainda os fatos se considerarmos protagonizados por dom Lugo, representante direto e autoridade máxima, em sua diocese, de uma organização religiosa que impõe ao seu clero, por ele ali chefiado, a abstinência total do sexo e a própria renúncia ao casamento.

Em defesa do ex-padre e ex-bispo, se poderá alegar que, no momento em que renunciou àqueles títulos, fê-lo por haver chegado, intimamente, à descrença da validade axiológica das regras a que estivera, até então, jungido. Percebendo que não pode haver uma moral para o clérigo e outra para o secular, teria concluído, em determinado momento, que a prática do sexo não é condenável e que, antes, é um direito e uma saudável necessidade do ser humano. Mas, não parece que assim pense ele. Tanto que, publicamente, rogou perdão, reservando-se, ainda, a fazer o acerto de contas com seus confessores, em quem, pois, segue reconhecendo o divino dom de reintegrá-lo no perdido estado de graça.
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O divino e o humano
Ambiguamente, pois, o “homo sum” de Terêncio vale para o cidadão, mas não é aplicável ao clérigo. Este, por uma misteriosa abstração teológica, mais do que renunciar ao sexo e até ao casamento, renuncia à sua própria humanidade. Aí está a grande contradição da religião que a faz intrinsecamente irreconciliável com o nosso tempo: essa arbitrária divisão da vida entre o sagrado e o profano, entre o divino e o humano. Até onde vai o divino e onde começa o humano? Em que segmentos da vida e da morte incidem os mistérios divinos e em quais outros se podem aplicar os avanços, sempre crescentes, do conhecimento e da ética desenvolvidos pela fantástica experiência do espírito humano?
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Consciência e vida
Não parece mais ajustado buscarem-se as razões divinas na mais fascinante obra que conhecemos: a consciência? Nela não estarão refletidas, de forma diáfana e universal, todas as leis contidas na natureza?
Terêncio, mais de 100 anos antes de Cristo, já percebera o que os humanistas viriam proclamar na modernidade ocidental: que o homem é a medida de todas as coisas. Ou seja, que sem compreender o humano, jamais teremos a consciência do divino. E que, pois, é um equívoco querer separar um do outro, já que tudo é consciência e tudo é vida
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NOTÍCIAS
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Luiz Signates no CCEPA
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O pensador espírita Luiz Signates, jornalista e professor universitário, esteve em visita ao Centro Cultural Espírita de Porto Alegre, na segunda-feira, dia 11 de maio.
Signates, que reside em Goiás, atuando como professor na Faculdade de Comunicação Social da Universidade Federal daquele Estado, tem vindo ao Rio Grande do Sul para cumprir atividades em curso de pós-doutorado em sua área junto à Universidade do Vale do Rio dos Sinos – UNISINOS, como professor convidado.
Na noite de 11 de maio, aproveitou para visitar o CCEPA, que, segundo disse, havia muito tempo desejava conhecer, pois admira a história e a influência exercida pela entidade no contexto espírita do Brasil e do mundo. Participou, naquela noite, do Grupo de Conversação Espírita, atividade das segundas-feiras, no CCEPA. Os integrantes do grupo aproveitaram para questionar Signates sobre vários aspectos ligados a ideias de pluralismo e alteridade no meio espírita, temas que têm sido objeto de vários trabalhos daquele intelectual goiano.
Aproveitando o tempo em que Luiz Signates ainda permanecerá no Rio Grande do Sul, o Centro Cultural Espírita de Porto Alegre, por seu Departamento de Eventos, está programando a realização de um Seminário a ser conduzido por ele sobre “Espiritismo e fraternidade: o diálogo como realização do amor ao próximo". O evento será aberto ao público, especialmente espírita, e, provavelmente, será realizado no próximo mês de agosto. Os interessados poderão obter informações futuras no blog do CCEPA: http://www.ccepa.blogspot.com/ .
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Salomão foi o palestrante de junho
Prosseguindo na sua programação de conferências públicas na primeira segunda-feira de cada mês, sempre às 20h30, o Centro Cultural Espírita de Porto Alegre ofereceu, na noite de 1º de junho corrente, a palestra “Fundamentalismo e Alteridade”, com o vice-presidente da Casa, Salomão Jacob Benchaya.
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dia 27 tem Café Cultural no CCEPA
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No próximo dia 27 de junho, sábado à tarde, o Centro Cultural Espírita de Porto Alegre realizará seu II Café Cultural. O primeiro foi realizado por esta mesma época, no ano passado.
O Café Cultural objetiva reunir os amigos do CCEPA em delicioso café, acompanhado de atividades artísticas e culturais. Fique atento no nosso blog.




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Vem aí novo Curso de Iniciação ao Espiritismo.
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Agora na tarde das quartas-feiras
O novo CIESP será ministrado por Donarson Floriano Machado. +

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ENFOQUE
Na teologia do mercado, nunca há o bastante
José Rodrigues
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Os fundamentos éticos e sociais do espiritismo nunca estiveram tão atuais como no presente. Todo o discurso apresentado pelos espíritos, a partir dos meados do Século XIX, é calcado no que muito mais tarde se chamaria de desenvolvimento sustentável, desde que compreendidos os limites da natureza e os nossos.
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Há que se refletir sobre acontecimentos contemporâneos e recentes, em torno da viabilidade do planeta, quanto do comportamento humano, visto em suas relações sociais, para melhor se avaliar a contribuição do pensamento espírita, antecipado no tempo, ante as reais necessidades do homem e do meio. Para tanto, citem-se apenas dois itens da agenda mundial, o clima, ameaçado pelo aquecimento fora de proporções e a crise financeira, deflagrada pela economia norte-americana, com transbordamento internacional. Diagnósticos de um e de outro têm como base a ação humana, seja pela desabalada ânsia de consumo, no caso, desigual, ou pela ambição desmedida de uma elite que se julga sábia, despreocupada com o próximo.
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No item do consumo, a economia mundial vinha vivendo um ciclo de autêntica farra, sem exceção do Brasil, com valorização acelerada dos imóveis, maior entupimento das vias públicas por veículos, todos a provocarem maior demanda de bens naturais. Mas como se diz em jargão da economia “todo avião que sobe, desce”, as curvas ascendentes fizeram um ‘joelho’ e declinaram. Foi o soluço da Terra. O substrato desse comportamento foi o apoio de um sistema financeiro enganoso, com gente muito bem paga atrás do balcão a vender ilusões.
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Esses picos e vales são tidos como normais pelos economistas, mas resultam de um primado filosófico, o da aceitação das diferenças de classes. De fato, sob uma visão social e moral, guardadas as justificativas advindas de catástrofes climáticas (o que hoje também se atribui à ação humana), são práticas nas quais predomina a mais valia denunciada por Marx.
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Neste ponto introduzimos o pensamento espírita que define os conceitos de necessário e útil, afinal, o desafio que enfrentamos em nossas buscas. Disseram os espíritos que “só o necessário é útil”, complementando com “o supérfluo nunca o é”. Daí decorrem verdadeiras alfinetadas dos espíritos sobre o mau uso dos bens da Terra e às equivocadas acusações às nossas carências. “A terra produziria sempre o necessário, se o homem soubesse contentar-se com o necessário. Se ela não lhe basta a todas as necessidades, é que emprega no supérfluo o que poderia ser aplicado no necessário”.
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Esse homem que conhecemos quer trocar de carro a cada ano, de computador a cada semestre, quer que a bolsa de valores trabalhe para si, está com peso acima do saudável, desperdiça o tempo pelo ócio imerecido, deixa-se enganar pela competição consumista que ‘vende’, por exemplo, os aventureiros da Fórmula 1 como semideuses e ainda pretende um mundo de equilíbrio. Essa equação não fecha.
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Contrapõe-se que o mundo, ainda que a duras penas, venha fazendo seus ajustes. Dos 3,0 bilhões que éramos por volta de 1960, chegamos aos 6,6 bilhões no presente. Poderemos alcançar os 9,0 bilhões em 2050. É preocupante, na medida em que os países classificados como desenvolvidos já apresentem baixíssima taxa de avanço populacional, até mesmo decréscimo, como Japão, (-0,02% ao ano) e Alemanha, 0,07%, enquanto os países em desenvolvimento ou subdesenvolvidos nos quais estão 75% da população mundial, têm taxas de crescimento até acima de 2%, para a média mundial de 1,17%. A brasileira é de 1,26%, face a 3,0% há 40 anos.
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A nossa sorte é que Malthus errou. O pastor anglicano (1766-1834) que chegou a pregar a abstinência sexual dos pobres, para não engrossarem o contingente de mal-alimentados, não previu o avanço tecnológico, que tem multiplicado a produtividade agrícola em taxas superiores à do aumento da população. A safra de grãos brasileira, nos últimos 17 anos, cresceu mais de 146%, ante uma área plantada de 24%. Ao mesmo tempo, a taxa de fecundidade, da ordem de 5,8 filhos por mulher, na década de 1970, já está em torno de 2,0.
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Esses dados não nos livram de duras desigualdades no planeta, ainda com cerca de 22% de analfabetos, 800 milhões de subnutridos e menos de um por cento com acesso à internet, para ficarmos apenas nestes itens. Com esse quadro de investida à natureza e de insensibilidade humana, cabe um chamado de Harvey Cox*. Ele assim direciona: “Um mestre zen japonês certa vez disse a seus discípulos, enquanto expirava em seu leito de morte: ‘aprendi uma só coisa na vida: o quanto é o bastante’. Ele não encontraria lugar no templo do mercado, pois para este, o Primeiro Mandamento é nunca há o bastante”.

(*) Professor e teólogo da Universidade de Harvard (EUA), em The Market as God (1999). Também citado por Ricupero (FSP/14.07.02).

José Rodrigues
, jornalista e economista, um dos coordenadores do site Pense-Pensamento Social Espírita. Integra o Centro Espírita Allan Kardec, de Santos/SP.
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OPINIÃO DO LEITOR
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Espiritismo ante a eutanásia
Só um abraço ao colunista Milton Medran Moreira pelo “Opinião em Tópicos” de abril (“O espiritismo ante a eutanásia”). Sensibilidade rara, clareza... tudo o que admiro nos seus artigos.
Maria Pia, São Paulo, SP - mp_macedo@hotmail.com

Filosofia Penal dos Espíritas
Temos a satisfação de informar que o livro "Filosofia Penal dos Espíritas" (Estudo de Filosofia Jurídica) está postado no Pense-Pensamento Social Espírita. O autor, professor Fernando Ortiz, da Universidade de Havana, dedica a obra a César Lombroso. Tradução de Carlos Imbassay e Apresentação de Deolindo Amorim.
Antropólogo, etnólogo, sociólogo, jurista e linguista, Ortiz é cubano, nascido em 16 de julho de 1881. É considerado um dos maiores intelectuais da América Latina. Escreveu mais de 100 obras sobre os mais variados temas.O original é de 1951.
O espaço de quase 60 anos, não tira a atualidade da obra.

Abraços. Eugenio Lara e José Rodrigues, coordenadores do Pense.www.viasantos.com/pense

quinta-feira, 7 de maio de 2009

OPINIÃO - ANO XV - EDIÇÃO N° 163 DE MAIO DE 2009

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TRANSCOMUNICAÇÃO NA UNIVERSIDADE
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Pesquisadora Sonia Rinaldi prepara-se para apresentar tese de mestrado na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo sobre transcomunicação. Em entrevista, sustenta que não há fenômeno mais concreto para comprovar cientificamente a vida após a morte do que a transcomunicação instrumental.

O que é transcomunicação
A paulistana Sonia Rinaldi, que há mais de 20 anos, pesquisa o fenômeno, conceitua a transcomunicação instrumental como “um recurso que permite a comunicação entre encarnados e desencarnados por meio de aparelhos eletrônicos” (entrevista publicada no site do Instituto de Pesquisas Projeciológicas e Bioenergéticas, maio/2005 – http://www.ibp.org.br/br/). Segundo afirmava na entrevista, a transcomunicação “pode ser utilizada como prova científica de que realmente a morte não existe”.
Para Sonia e seus colaboradores do Instituto de Pesquisas Avançadas em Transcomunicação Instrumental, segundo consta em ampla reportagem recentemente publicada na revista eletrônica Nova E -http://www.novae.inf.br/site/modules.php?name=Conteudo&pid=1242 – “o assunto nada tem a ver com religião, apesar de falar em vida após a morte”. Por isso mesmo, Sonia se mostra otimista com a oportunidade agora surgida. Ela vai defender, a partir deste ano, uma tese de mestrado na PUC – Pontifícia Universidade Católica, de São Paulo, na qual pretende comprovar que, após a morte do corpo físico, a consciência sobrevive.

A tese
Na entrevista, concedida ao jornalista Manoel Fernandes Neto, a pesquisadora sustenta que “nenhum fenômeno é mais concreto - e, portanto, suscetível de toda sorte de análises e investigação, como requer a Ciência - do que a Transcomunicação Instrumental – ou seja, a comunicação com o Outro Lado da Vida através de gravações em computador e vídeo”.
Sônia classifica o fato de sua tese haver sido aceita na PUC como uma “nova rota para nossa pesquisa”, pois “levar a Transcomunicação ao meio acadêmico é coisa que jamais ocorreu na História”. A tese terá por título “Transcomunicação: Interconecctividade entre Múltiplas Realidades e a Convergência de Ciências para a Comprovação Científica da comunicabilidade Interplanos.
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Um estudo multidisciplinar
Relata Sonia Rinaldi que enfrentou sérias dificuldades para alcançar esse objetivo: “Chegaram a me chamar na PUC para eu mudar minha tese, mas não aceitei”, diz.
Afirma que sua proposta é de uma “megatese multidisciplinar”, com a participação de engenheiros, físicos e matemáticos – todos com doutorado, para que eles e não a autora da tese avaliem, dentro dos parâmetros requeridos pela ciência, que o fenômeno é real: “A minha parte é levantar a ocorrência do fenômeno – a deles será endossar a autenticidade e – dentro das possibilidades –, tentar explicá-lo”, justifica.
Sonia Rinaldi vai apresentar tese de mestrado sobre transcomunicação na PUC de São Paulo.

Para saber mais:
O site oficial do Instituto de Pesquisas Avançadas em Transcomunicação Instrumental é http://www.ipati.org/.
- A entrevista completa com Sônia Rinaldi pode ser lida em
http://www.novae.inf.br/ .
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NOSSA OPINIÃO
Tempo de quebrar preconceitos

Há um século e meio atrás, quando, na França, editava seus livros e a Revista Espírita, Allan Kardec guardava a convicção plena de que, em poucos anos, graças à pratica da mediunidade, acompanhada esta por um sério estudo dos homens de ciência, o fenômeno da sobrevivência do espírito haveria de estar cientificamente comprovado.
O período situado entre o fim do Século XIX e todo o Século XX foi pródigo em fenômenos mediúnicos e não foram poucos os homens de ciência que sobre eles se debruçaram, pessoalmente abonando sua autenticidade. Crookes, Zöllner, Myers, Aksakov, Bozzano, Geley, Guimarães Andrade e dezenas de outros, enfrentando, alguns, sua própria inicial incredulidade, acabaram por reunir provas cabais da ocorrência da comunicação entre os planos material e espiritual. Nem por isso a ciência deixou de ser materialista.
Por força do paradigma ainda vigente, questões que dizem com a vida após a morte são relegadas ao domínio da fé, insuscetíveis de serem examinadas à luz da pesquisa científica. O espírito e suas manifestações, por uma arbitrária decisão da contemporaneidade, estão engessados à religião, e os próprios religiosos fazem questão que assim o seja, aprisionando no domínio de suas mais íntimas crenças os temas que se convencionou definir como sagrados. Sobre eles não devem incidir nem a razão, nem a experiência científica.
O trabalho de Sonia Rinaldi na PUC São Paulo, não mais pela mediunidade convencional, mas pela intervenção direta dos espíritos via equipamentos eletrônicos, é mais uma tentativa de furar esse bloqueio. Conseguirá? Einstein afirmou ser mais fácil quebrar um átomo do que um preconceito. O átomo já foi quebrado, dividido e subdividido. Estará chegando a hora de quebrar o preconceito ainda vigente relativo ao espírito?
(A Redação)
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Editorial
ESPIRITISMO - UMA DENOMINAÇÃO ADEQUADA

O nome é em certo sentido a própria coisa; dar nome às coisas é conhecê-las e apropriar-se delas; a denominação é o ato da posse espiritual. (Miguel de Unamuno)
Não é de hoje que os estudiosos e cultivadores do espiritismo preocupam-se com o imenso caudal de distorções a que foi ele submetido. Criado como uma “ciência que trata da natureza, origem e destino do espírito e de suas relações com o mundo material” (Definição de Allan Kardec em “O que é o Espiritismo”), o espiritismo chamou a si, para dele ocupar-se como uma realidade cientificamente observável e comprovável, o fenômeno do espírito, suas manifestações e consequências.
Fazer ciência, diversamente do que praticar uma religião, exige, acima de tudo, liberdade de pensamento e de ação, distanciamento de dogmas e preconceitos de qualquer espécie. Por isso mesmo, a liberdade foi um valor destacado e prestigiado em toda a obra de Kardec. Como tantas vezes afirmou, o espiritismo não seria um fechado sistema de fé, mas um campo aberto à investigação que, no entanto, em momento algum, poderia distanciar-se da ética, do bom-senso e da razão, consubstanciados na lei natural.
Contudo, as questões alusivas ao espírito, por força das crenças e dos mitos que historicamente o cercaram, sempre foram, e continuam sendo, um terreno fértil para nele medrarem o misticismo, as crendices e práticas as mais esdrúxulas e irracionais. O espiritismo não ficou infenso a esse tipo de influência, fácil de nele penetrar até mesmo em razão de sua qualificação como um movimento livre-pensador. Por conta da interpretação de que, ao lado de seus reconhecidos aspectos científico e filosófico, poderia nele se vislumbar também um aspecto religioso, transformaram-no simplesmente em mais uma seita cristã. Herculano Pires, eminente pensador espírita brasileiro, registra em seu “Curso Dinâmico de Espiritismo”: “O que impediu a expansão do Espiritismo na Europa do século passado (Séc.XIX), de maneira a poder renovar a velha concepção de mundo ainda dominante, foi simplesmente seu aspecto religioso. Como o Cristianismo Primitivo, o Espiritismo foi acolhido com ansiedade pelas camadas pobres da população que o converteram por toda a parte numa nova seita cristã”.
Exatamente por constatarem e lamentarem essa triste distorção, honestos e irrequietos pensadores espíritas, em diferentes momentos, chegaram a propor alguns neologismos, substitutivos da palavra “espiritismo”, para melhor qualificar esse movimento de ideias que, bem mais do que uma ciência, se desenvolveu - de acordo com o que, aliás, pretendia Kardec - como uma nova e sempre progressiva e progressista visão de universo, de homem e de mundo. Cada vez, entretanto, que se somam esforços em busca de uma adequada denominação para esse movimento de ideias, termina-se por concluir, quase num consenso, que não há melhor designação do que aquela que lhe deu Kardec: espiritismo. E que, se há, não convém aos verdadeiros espíritas renunciar ao rico patrimônio até aqui construído sob esse nome, apesar dos que sobre ele se equivocam, distorcem-no e até o envergonham.
Não se pode deixar de reconhecer que é hora de retificar rumos. Que é tempo de se expungir do campo doutrinário espírita crendices e visões distorcidas que afetaram, inclusive, respeitáveis instituições autodenominadas gestoras do movimento espírita. Que já não é mais tempo de confundir a ciência, a filosofia e a ética do espiritismo com a religião cristã, tão distantes e radicalmente opostos estão os postulados teóricos de um e de outra. Mas, para tanto, é preciso reconhecermo-nos como verdadeiros espíritas, dispostos a preservar esse rico patrimônio chamado, originária e originalmente de espiritismo. Esta, aliás, é uma boa denominação. Tão boa e tão eloquentemente fiel aos objetivos de seu fundador que não convém de substituí-la por outra. Até porque não será nada fácil encontrá-la.
Cada vez que se somam esforços em busca de uma nova denominação para esse movimento de ideias, conclui-se não haver outra melhor do que espiritismo.
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OPINIÃO EM TÓPICOS
Milton R. Medran Moreira

O pastor e a Paixão
Estávamos na praia no sábado, véspera da Páscoa. Acordei cedo e liguei o rádio. Um pastor falava sobre os mistérios da Semana Santa. Dizia que a Sexta-Feira da Paixão era uma data triste porque ali Satanás havia vencido Jesus. Mas que a Páscoa marcava a vitória de Cristo e por isso tinha de ser comemorada. Ele morrera para nos salvar e ressuscitara. Mas que devíamos permanecer vigilantes porque o diabo era muito tinhoso e poderia obter outras vitórias conquistando nossas almas. Depois, começou a deitar falação sobre a criação do mundo, a expulsão do Paraíso, perorando o sermão com esta preciosidade: “A ciência quer colocar o início do mundo para muito antes disso. Mas não creiam. É mais uma artimanha de Satanás. Tudo o que contraria a Bíblia é falso”. Fiquei pensando: como, em pleno Século XXI, podem subsistir concepções típicas da Idade Média? E gente, muita gente, que ainda segue essas crendices!
A Páscoa faz mal
Depois do café, fui conferir as mensagens no computador. Na lista da CEPA, um texto vigoroso da amiga Nícia Cunha. Seu título: “A Páscoa faz mal”. “Não só pelo excesso de chocolate”, dizia, mas “o mal muito mais insidioso que a Páscoa faz é essa insânia mundial, chamada de fé, amor a Deus e às tradições, agora mostradas ao que seguem crendo nas “versões cristãs montadas ao longo dos séculos para torná-las submissas”. Pessoas simplórias que “caminham em intermináveis procissões, seguem andores com imagens de Jesus morto, mutilado, e de sua mãe dolorosa, vestida de roxo. Movem-se ajoelhadas em pedras, praticam autossuplícios com instrumentos medievais de tortura, crucificam-se de verdade. Tudo para se penitenciarem”. Aí, Nícia pergunta: “Mas penitenciarem-se de quê, meu Deus?” e complementa: “Cvivo pela televisão e pela Internet”. Minha amiga estava indignada com as imagens chocantes protagonizadas por pessoas de boa-fé riminosos não são, certamente, pois se o fossem, ali não estariam. A imensa maioria destas pessoas já vive na tortura da pobreza, na escuridão da mente estreita, da fé irracional que as leva a ter medo de Deus, inclinando-as a bajulá-lo e com ele praticar barganhas”.
O pecado original
Fiquei pensando: é bem possível que o pastor evangélico da rádio do meu pequeno balneário ainda creia que o mundo foi feito por Deus, do nada, há cerca de 6.000 anos atrás. E que, no 6º dia, como diz a Bíblia, tenha criado Adão e, de sua costela, tirado Eva. Afinal, o pastor de minha praia não deve ter sequer o curso primário. Faz muito sentido para ele que o primeiro casal tenha mesmo sucumbido à tentação da serpente e comido do fruto proibido. Daí o pecado original, a expulsão do Paraíso e toda a maldição divina ao ser humano, só remissível pela terceira pessoa da trindade, encarnada, oferecendo-se como “cordeiro de Deus que tira os pecados do mundo”.
Agora, o que não entra na minha cabeça é que papas, bispos, teólogos ilustres e ilustrados, sigam baseando toda sua teologia nesses mitos. São meras alegorias, dizem uns. Mas, convenhamos, alegorias que só nos afastam da racionalidade e que contrariam frontalmente as verdades científicas. Tire-se o pecado original da teologia cristã e não sobra nada a justificar todos os demais dogmas, da criação à redenção. Desmorona tudo.
Religião também faz mal
Para Nícia, a “exploração da culpa coletiva” - aquela que tem sua matriz justamente no dogma do pecado original – ainda hoje serva “para subjugar os fiéis às normas e hierarquias da classe sacerdotal”. Mesmo considerando que se devam respeitar todas as crenças, sustenta que “é necessário tirar das religiões o privilégio acrítico, pois nenhuma outra manifestação humana está livre de criticas, seja no campo conceitual, autoral ou de costumes”,
Ou seja, Nícia propõe que tratemos as ideias religiosas com mesmo rigor racional com que tratamos todas as demais manifestações humanas. E tem razão. Em nome da liberdade de crença, temos, inclusive os espíritas, nos omitido da tarefa de mostrar os absurdos que se pregam em nome da fé. Kardec chamou a atenção para isso em “O Céu e o Inferno”, ao afirmar que a religião “apropriada, ao início, aos conhecimentos limitados do homem”, tornou-se ultrapassada por não acompanhar o progresso e com isso contribui para o aumento dos incrédulos.
Compete a nós demonstrar que espiritualidade não é o mesmo que religião. E que esta, quando não iluminada pelas luzes da razão e do progresso, também faz mal.

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NOTÍCIAS
Encontro com Jaci e Marcelo Henrique em tarde de aniversário
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A tarde de sábado, 25 de abril, reuniu no Centro Cultural Espírita de Porto Alegre os dirigentes da instituição e associados mais comprometidos com as diversas atividades da Casa com os companheiros Jaci Regis, do Instituto Cultural Kardecista de Santos e Marcelo Henrique, assessor administrativo da ABRADE – Associação Brasileira de Divulgadores Espíritas.
Jaci visitou o CCEPA com o objetivo de detalhar aos dirigentes da Casa o seu “Modelo Conceitual da Doutrina Kardecista”, documento que reúne ideias que, nos últimos anos, aquele dirigente santista tem exposto em vários escritos e pronunciamentos e que terminam por propor novos rumos, a partir de uma postura laica. Em debate que se seguiu à exposição, vários membros do CCEPA se manifestaram apoiando os fundamentos trazidos por Jaci, embora com rejeição à designação “doutrina kardecista”. Do encontro participaram também os dirigentes da S.E.Casa da Prece, de Pelotas: Dora Helena, Homero Ward e esposa Regina, Octaviano e esposa Suedi.
A segunda parte do encontro esteve a cargo de Marcelo Henrique Pereira (São José/SC) que visitou o CCEPA acompanhado de Júlia, sua esposa. Marcelo fez exposição sobre a reestruturação da ABRADE que acaba de substituir o modelo presidencialista adotando novo formato de gestão colegiada. Marcelo Henrique finalizou sua exposição com um convite ao CCEPA para que participe desse esforço renovador da ABRADE associando-se a ela. O convite foi bem aceito pelo grupo presente que irá submetê-lo à Assembléia Geral da instituição.

Comemorados os 73 anos do CCEPA
Na tarde em que recebeu Jaci e Marcelo Henrique, o Centro Cultural Espírita de Porto Alegre comemorou também seu 73º aniversário, transcorrido no dia 12/4. No intervalo entre uma e outra exposições dos convidados, foi servido o bolo de aniversário, acompanhado de salgadinhos e refrigerantes.
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MEDRAN ENCERRA CURSO DE INICIAÇÃO NO CCEPA
Na quinta-feira, 14 de maio, o Diretor de Comunicação Social do Centro Cultural Espírita de Porto Alegre, Milton Medran Moreira encerra o Curso de Iniciação ao Espiritismo 2009, promovido pelo Centro Cultural Espírita de Porto Alegre.
Ministrado em cinco módulos, nas quintas-feiras à noite, o curso tratou dos seguintes temas: 1) O Que é o Espiritismo (a cargo de Maurice Herbert Jones); 2) Sobrevivência, Imortalidade e Evolução do Espírito (Carlos Grossini); 3) A Comunicação Mediúnica (idem); 4)Pluralidade das existências e dos mundos habitados (Medran).
O CIESP é coordenado pelo Departamento de Eventos do CCEPA, sob a coordenação de Salomão Jacob Benchaya.
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Enfoque
ESPIRITISMO E CIÊNCIA
Gilberto Schoereder *

O desenvolvimento científico e tecnológico trouxe uma série de ingredientes importantes para as pesquisas relacionadas ao mundo espiritual. Ainda não se atingiu o ponto ideal nas investigações, mas a aproximação com a ciência tem se mostrado como o caminho mais adequado.
Muitos pesquisadores do espiritismo, espíritas e não-espíritas, entendem que não são realizados experimentos científicos suficientes relativos ao assunto. Na verdade, essa aproximação com a ciência foi um dos preceitos básicos apresentados por Kardec e é uma busca incessante da maior parte dos espíritas.
No entanto, sendo as experiências suficientes ou não, não resta dúvida de que existem muitas pessoas procurando estreitar essa ligação, procurando novos métodos de pesquisa e experimentação científica, assim como de comprovação dos fenômenos ligados ao espiritismo. Exemplos claros dessa busca são os trabalhos do dr. Ian Stevenson, nos EUA, e as pesquisas relacionadas à transcomunicação instrumental que, no Brasil, tem Sonia Rinaldi como destaque.
Desde que os fenômenos começaram a se tornar mais populares, em meados do século XIX, inúmeros cientistas dedicaram seu tempo e esforços para tentar registrar, mensurar e determinar parâmetros cientificamente aceitáveis para eles. A Sociedade Psíquica da Inglaterra foi um dos pontos centrais dessas pesquisas, realizando dezenas, senão centenas de experiências. Desse empreendimento originaram-se tanto as pesquisas parapsicológicas atuais, quanto as que se encontram mais ligadas ao espiritismo propriamente dito.
Mas, hoje, muitos espíritas reclamam que essas mesmas experiências, já com mais de cem anos de vida, continuam sendo apresentadas como referência e comprovação dos fenômenos, o que não é mais aceitável tendo em vista a evolução da ciência e da própria tecnologia que pode ser aplicada nas investigações.
A realização de experimentos com transfotos, transcomunicações, experiências de quase-morte, reencarnação, terapia de vidas passadas e algumas aproximações entre a ciência moderna e as ideias espíritas, mostra que existem, de fato, pessoas e grupos procurando renovar esse aspecto do espiritismo. O problema maior, parece, é a dificuldade em fazer com que esses esforços sejam reconhecidos pela chamada “ciência oficial”.
Em muitos casos, também, as pesquisas são realizadas por grupos autônomos, não reconhecidos pela ciência e, mesmo quando os resultados apresentados são muito interessantes, as pesquisas não são absorvidas pelos grandes centros de pesquisa, como as universidades, não ganhando o “status de credibilidade” e visibilidade necessários no mundo acadêmico.

Reencarnação
Uma pesquisa que chamou a atenção do mundo acadêmico foi a do dr. Ian Stevenson, médico psiquiatra que, por 37 anos pesquisou possíveis casos de reencarnação, viajando o mundo inteiro à procura de relatos e evidências, coletando histórias de crianças que afirmam terem recordações de vidas passadas.
Dr. Stevenson ouvia o que as crianças tinham a dizer, guardava as informações importantes referentes a lugares e pessoas com as quais elas teriam entrado em contato numa vida anterior, e se dirigia a esses locais para nova coleta de dados, que comparava com os anteriores. As crianças não se encontravam sob hipnose – um aspecto que é bastante combatido, por exemplo, quando se fala de regressão a vidas passadas – e as informações podiam, em geral, ser facilmente comprovadas, uma vez que elas não se referiam a épocas muito distantes como o antigo Egito.

Tom Shroder, editor do jornal The Washington Post, escreveu o livro Almas Antigas relatando sua experiência com o dr. Stevenson, a quem acompanhou em suas peregrinações pelo mundo. Segundo ele, uma das coisas que chamaram sua atenção no trabalho do cientista foi a forma minuciosa com que ele checa todas as informações. Além disso, percebeu que cientistas de vários países tinham o dr. Stevenson em alta consideração, ainda que o assunto que ele tratava fosse considerado “difícil”. Claro que não se trata de uma postura que se estende a toda a comunidade científica: alguns colegas o consideraram um precursor, por estar pesquisando a reencarnação sob bases científicas e enfrentando um verdadeiro tabu; outros se colocaram totalmente contrários às pesquisas, e até mesmo à idéia de se pesquisar um assunto como esse.

Dificuldades
Dr. Ian Stevenson também tem uma postura incomum entre os cientistas, criticando a postura da ciência em muitos casos. “Para mim”, ele diz, “tudo em que os cientistas acreditam agora está aberto a mudanças, e eu fico consternado ao perceber que muitos cientistas aceitam o conhecimento atual como algo imutável”. Ele lembra que, no passado, os hereges que negassem a existência das almas eram queimados; hoje, os cientistas “queimam” aqueles que afirmam que as almas existem.
Shroder levanta algumas questões pertinentes no que diz respeito à relação da ciência com temas como a reencarnação. Uma é que esse tipo de pesquisa não permite que se faça uma investigação em laboratório, uma vez que estamos nos referindo a fenômenos ou declarações espontâneas. “Tais casos”, ele explica, “só podem ser investigados como se faria com um crime, ou um processo legal – com entrevistas, cruzando informações de várias testemunhas com evidências documentadas. Embora isso possa ser feito com bastante cuidado, alguém sempre pode descartar o caso como ‘evidência fantasiosa’ e, portanto, não confiável”.
Também faltam evidências sobre quaisquer mecanismos através dos quais a reencarnação de tornaria possível, e o próprio dr. Stevenson não afirma possuí-las ou que possa detectar a alma com instrumentos objetivos. Junta-se a isso o já conhecido conservadorismo da ciência, “uma tendência de não encarar com seriedade qualquer evidência que desafie o atual entendimento de como o mundo funciona”.
As dificuldades são reais, uma vez que, para a ciência, o que conta é a experimentação, a existência de provas conclusivas e a possibilidade de repetir experimentos em ambientes diferentes. O problema surge quando se fala da maioria dos fenômenos paranormais, mas dr. Stevenson – como outros pesquisadores da área, inclusive o brasileiro Hernani Guimarães Andrade – sabe que para tratar desses assuntos é preciso agir e pensar de maneira heterodoxa, caso contrário não se chega a lado algum.

Tecnologia Para o Além
A utilização de novas tecnologias nas investigações do mundo espiritual começou, na verdade, no final do séc. XIX, com ninguém menos do que Thomas Alva Edison (1847-1931). Afirma-se que Edison, que desenvolveu a lâmpada, inventou o fonógrafo, em 1877, movido pelo desejo de gravar a voz de sua falecida mãe, o que não conseguiu principalmente devido à precariedade do aparelho.
Já em 1936, o físico Oliver Lodge (1851-1940), um dos precursores da radiocomunicação, afirmou que os progressos na área da eletrônica tornariam possível desenvolver um aparelho que captasse a voz dos mortos. Essa “previsão” começou a se tornar realidade em 1959, quando o psíquico sueco Friedrich Jurgenson conseguiu gravar em fita o que chamou de “vozes paranormais” ou “psicofonia”. Ele chegou a isso por acaso, quando gravava cantos de pássaros num bosque e, ao ouvir a reprodução, percebeu murmúrios semelhantes a vozes humanas. A partir daí, realizou uma série de experiências tentando tornar aquelas vozes mais nítidas, conseguindo identificar mensagens e informações em vários idiomas.
O psicólogo Konstantin Raudive deu seqüência aos experimentos, realizando milhares de gravações de vozes; e outros pesquisadores conseguiram aprimoramentos dos aparelhos, como foi o caso do engenheiro austríaco Franz Seidl, com seu psychofon, e do norte-americano George Meek, com o spirocom.
Entretanto, para a brasileira Sonia Rinaldi, esses aparelhos já estão ultrapassados. Sonia é coordenadora da Associação Nacional dos Transcomunicadores e, provavelmente, a maior autoridade nacional em transcomunicação. Ultimamente, a comunicação com os espíritos tem sido feitas por meio de computadores e aparelhos bem mais sofisticados, que eliminam a possibilidade de interferência externa. As gravações de vozes em computador são realizadas sem microfone, com o registro sendo feito diretamente no hardware. Da mesma forma, no computador também podem surgir imagens. Utiliza-se um tubo de raios catódicos e não uma televisão, que poderia captar imagens emitidas aqui mesmo da Terra. Para obter a credibilidade necessária, Sonia envia os resultados desses contatos realizados através de aparelhos para uma análise rigorosa de especialistas de universidades, e os laudos técnicos são colocados à disposição de quem se interessar.

Busca Incessante
O próprio George Meek já havia sugerido que os sistemas eletromagnéticos não seriam uma ponte confiável com o mundo dos espíritos, que deveria possuir um tipo de energia ainda desconhecido para nós. A parapsicologia segue por um caminho semelhante ao analisar a questão, entendendo que a transcomunicação pode estar sendo feita por meio de um tipo de energia mental, psíquica ou espiritual, que ainda não conseguimos captar, medir e estudar convenientemente, por não possuirmos a aparelhagem necessária.
Muitos dizem, ainda, que o fenômeno diz respeito à própria mente humana, atuando no ambiente que a cerca. Assim, as mensagens poderiam estar vindo dos vivos, e não dos mortos. Seja como for, mesmo no ambiente espírita a transcomunicação não é aceita de forma incontestável, mas é considerada a proposta cientificamente mais bem embasada até agora, e pode ser o caminho para se estabelecer uma relação com o mundo dos espíritos que não dependa da intermediação dos médiuns.
Também foi pensando no estabelecimento dessa ponte entre os dois mundos que Geraldo Medeiros também começou a se dedicar às chamadas transfotos, que ele define como “a capacidade ou a possibilidade que um filme fotográfico tem de se sensibilizar com a exposição, captando uma imagem que não estaria dentro do contexto visual normal daquele cenário”.
O fato é que, muitas vezes, têm-se tirado fotos em que aparecem imagens estranhas, geralmente pontos de luz ou imagens esbranquiçadas, e até mesmo imagens de pessoas já falecidas. O que Medeiros procurou fazer é obter um controle mais rigoroso dessas fotos, justamente porque é comum se dizer que não existe um controle científico adequado. “Operamos dentro de um ambiente totalmente controlado”, ele explica. A máquina fotográfica é colocada dentro de uma sala sem pessoas, isolada eletrônica e termicamente, evitando influências externas. O resultado é a obtenção de imagens que não deveriam estar ali, como se existisse a presença de alguém no local.
Para muitos cientistas, isso pode não parecer suficiente, mas todas essas pesquisas que estão sendo realizadas mostram, no mínimo, que um fenômeno importante está ocorrendo, e que merece mais atenção.
Para a maioria dos investigadores ligados ao espiritismo, os resultados obtidos não só podem como devem ser entendidos como provas da existência de outras dimensões de existência, e as dificuldades no contato com essas dimensões devem ser creditadas à nossa incapacidade em acessá-las.
Seguindo essa linha de raciocínio, portanto, é uma questão de tempo até que se desenvolvam os instrumentos e conhecimentos mais adequados para esse desafio.

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